Em breve, passaremos por mais um período eleitoral. Em renovado ato da peça deste grande teatro que é a vida, lá estaremos nós, assistindo e homologando a tudo com nosso voto.
Desde os primórdios da história, quando o homem evoluiu e criou o poder pela política, a humanidade se dividiu entre dois grupos distintos: dominantes e dominados. É a força intelectual em oposição à força física, sendo que a primeira é capaz de comandar bilhões da segunda. E o mundo, desde o fim do Neolítico, viu nascer a política e, com ela, o espetáculo que se estende até os tempos atuais.
Já tivemos tempos de reis, imperadores, generais, presidentes, oscilando entre monarquias e repúblicas. No entanto, a situação é sempre a mesma: o que muda são os conceitos teóricos, que nem sempre se confirmam na prática. Presenciamos na história da humanidade, desde o longínquo Império Romano, uma forma de os dominantes conservarem “in aeternum” (por todo o sempre), a eterna anestesiação da massa popular. Em Roma se dizia que, para manter o povo alheio, seria necessário aplicar um princípio filosófico bem simples: “Panis et circus!”, ou seja, “pão e circo!”, eis o segredo para deixar uma população mais inerte que uma múmia paralítica.
Essa filosofia consistia em fornecer abundantemente ao povo diversão e assistencialismo barato, para que, assim, se apagassem os ânimos de uma eventual revolta popular contra as barbaridades político-sociais. Os dominadores da posteridade aprenderam bem a lição. O pão e o circo continuam sendo a fórmula de sucesso da manutenção do “status quo” neste século XXI.
O que seria o “pão”? Essa parte confunde-se com o assistencialismo governamental dos últimos anos, as tais bolsas-família, bolsas-escola, bolsas-isso e aquilo. Nada contra esses projetos assistenciais, desde que não se transformem, no final das contas, em bolsas-cachaça. Sem falar no que isso tem servido para muita gente se aproveitar sem necessidade, mas, tudo bem, melhor deixar esse parênteses de lado. O fato é que muita gente está deixando de trabalhar, pois as rendas com as tais bolsas superam os honorários de sua profissão, não aqui, mas em outros lugares desse nosso imenso Brasil.
Agora, o que seria o tal “circo” na modernidade? O que é capaz de anestesiar qualquer noção da realidade e minar qualquer tipo de transformação social? Bah! existem tantos “circos” em nossa volta, citemos apenas alguns: futebol, carnaval e mais ultimamente BBBs e Fazendas.
O grande filósofo Descartes nos ensinou que o homem precisa sair da plateia do teatro do mundo, no qual vive como mero espectador, aplaudindo tudo que vê e ouve, e se aventurar a subir no palco, ser sujeito do espetáculo, transformar a realidade e assumir seu papel de criatura pensante. É dele a famosa frase “Cogito, ergo sum!“ (“Penso, logo existo!”). Pensar nos leva a dar conta da realidade, a agir e ser sujeito da história. Mas, pelo que percebemos, a vontade de Descartes demorará um pouco a acontecer, a dose de anestesia aplicada é muito forte e já criou raízes. É muito mais cômodo fazer do mundo uma fantasia do que encarar a realidade ou assumir uma posição.
Porém, é bom saber que nada é eterno, com isso temos esperança que um dia essa anestesia letárgica perca seu efeito.
Paulo Cesar Rosa da Conceição
Professor de História
Esta postagem foi publicada em 14 de maio de 2010 e está arquivada em Caixa Postal 59.


