Para que serve o jornal impresso?
Não sinto falta do jornal impresso. Nunca tive o hábito de sujar as mãos ao ler as notícias durante o café da manhã. Os dedos enegrecidos que folheiam as páginas são os mesmos que manuseiam o pão com manteiga, afinal. Difícil manter a elegância (ou a higiene) numa situação dessas.
Ainda assim, admito a falta que o papel faz. Li numa reportagem (on-line, obviamente) que a escassez de jornal velho está afetando a produção de abacaxis no Paraná. Os exemplares excedentes das gráficas eram vendidos a preços irrisórios e serviam de proteção para os frutos na lavoura. Agora, sem a circulação de algumas publicações regionais, restam aos agricultores alternativas mais caras, como a tela sombrite.
A ausência do material celulósico também afeta o trabalho de funerárias. Usa-se a “gazeta” para nivelar os cadáveres dentro dos caixões. E há muitas aplicações mais para os cinzentos periódicos.
Envolvidos em folhas de jornal, copos e pratos sobrevivem intactos ao sacolejo do caminhão de mudança. Depois, quando você já descarregou os caixotes na casa nova, pode usar o mesmo papel para limpar os vidros das janelas.
Quem sabe uma parede precise de pintura, né? Nesse caso, forre o chão com jornal e evite que as gotas de tinta manchem o assoalho. Eu mesmo, esta semana, senti falta de ter um caderno de variedades em mãos – para proteger meu quarto da sujeira de uma obra.
Se o tempo estiver chuvoso, não se preocupe. Uma boa bucha de jornal é suficiente para chupar a umidade do sapato molhado. Com sorte, sobrarão algumas páginas para atiçar o fogo da churrasqueira no fim de semana. Vai ver é por isso que as edições dominicais sempre foram mais extensas…
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Nós, jornalistas, sabemos que notícia é descartável. O ofício de manter a sociedade informada pode até ser nobre, mas a manchete de hoje perde logo a validade. Amanhã, vai enrolar o peixe da feira, isso se não for usada para catar o cocô do cachorro – uma solução, aliás, bem menos poluente que as sacolinhas plásticas.
Talvez a maior serventia do jornal impresso seja, justamente, demonstrar que toda história tem um fim. Em tempos de jornalismo digital, alguns leitores desatentos compartilham matérias antigas como se fossem novidade. É o passado sempre voltando para nos assombrar.
Pensando bem, quem dera os posts amarelassem feito papel velho.
Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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