Iniciar um ano com algo novo é sempre motivador. Especialmente quando se tem protelado, por razões indecifráveis, trilhar um caminho que atrai, mas que desafia e acovarda.
Em anos recentes frequentei na Unisinos o curso de Formação de Escritores, como fonte de lazer alternativa ao trabalho no jornalismo que me absorvia por inteiro e por vezes me estressava além do permissível. A escrita literária sempre me atraiu, mas até então não encontrara espaço para exercitá-la e foi uma experiência reconstrutora, que se não me transformou em escritora, me reaproximou do gosto pelo que fazia e que me estava cansando à época – ou seja, usar a criatividade na costura das palavras, exercício diário no campo do marketing e da publicidade, a que venho me dedicando desde que divido (quase entrego) a editoria do Panorama a novos talentos, enquanto cuido da coordenação comercial do veículo.
Pois bem: decidi, nos últimos minutos do segundo tempo para esta edição, que não adiaria mais o exercício de escrever, sem caráter jornalístico e sem compromisso com a realidade. Libertador!
Durante o curso na Unisinos, o estilo poético sempre foi o mais difícil para mim, talvez porque ele vai ao extremo oposto do formato jornalístico. Por isto mesmo, começarei publicando dois trabalhos meus no gênero, desenvolvidos durante o curso, nas aulas com Fabrício Carpinejar. (Tenho a qualidade, ou defeito, de querer encarar logo o que me parece mais difícil. Por isto, sejam complacentes com minha estreia.)
Susurros
Não controlo o desejo
por minha irmã.
Quero tê-la
violentamente.
Grita em mim
a necessidade
do seu sussurro.
Tomar cada traço
da beleza
que me foi negada
Relevei teu nome
Descobri vazia a tentativa de sublinhar meu nome.
Sublimei.
Se hoje esqueço como te chamas, perdoe.
Relevei.
Não.
Não pretendo que me perdoes
Por não lembrar teu nome.
Espero apenas que, como eu, resistas.
E insistas em te construir diante de mim.
Até que te conheça tão bem,
Que poderias chamar-te Eva ou Efigênia,
Pois eu sempre te pronunciaria num monossílabo.
Dó – fé – vil – má!
Qual o tom do seu jeito?
Se não te compões inteira,
Insinua-te por uma só nota.
Ou guarda-te de mim
com teu silêncio.
Inominável.


