Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 26 de outubro de 2012 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Patrimônio histórico

Sou ex-proprietário de imóvel antigo, ou histórico, como queiram, e por isso mesmo creio que minha opinião não é espúria no debate do Patrimônio Histórico de Taquara. Vejo manifestações de todos os lados: de conselhos municipais, do Ministério Público, de Prefeituras, de ONG’s, mas confesso que nunca vi a manifestação expressa de um proprietário de imóvel antigo, este inimigo público, este anticidadão, este crápula capitalista, este predador do patrimônio público.
Vamos falar da Pousada Jaeger. Ninguém viu que a Pousada Jaeger nos últimos 10 ou 15 anos em verdade transformou-se no acanhado Hotel Correa? Ninguém observou que o prédio estava nitidamente se deteriorando dia após dia? Por que os protestos por sua preservação adequada não começaram 10 ou 15 anos atrás?
Por ter vivido a experiência de manter um imóvel antigo, investindo os tubos para manter de pé um prédio de 1928, mesma data da Pousada Jaeger, posso garantir a todos: nenhum prefeito, nenhum promotor, nenhum historiador ou militante de qualquer ONG é mais importante ao Patrimônio Histórico de Taquara do que o proprietário do imóvel. Tire qualquer um deles da cena e os imóveis continuarão de pé. Quase não fazem falta! Tire o proprietário da cena e o imóvel simplesmente deixa de existir.
Não sinto orgulho por ter mandado derrubar minha casa de 1928, mas tenho a consciência tranquila pela convicção de ter feito o que era melhor para mim e para meus filhos: usufruir de um direito legalmente adquirido, patrimônio de minha família e que nunca teve qualquer tipo de auxílio ou interesse público manifestado através de ato concreto por sua manutenção.
Autoridades e autoridades no assunto: já tentaram ver o proprietário de imóvel antigo como um amigo do Patrimônio Histórico? Em vez de simplesmente restringir seus direitos, já tentaram seduzi-lo com algum tipo de benefício? Em lugar de transformar sua propriedade num mico imobiliário (a propriedade não é só o prédio antigo), já pensaram em como fazer desta propriedade um objeto de desejo para o mercado? Enfim, já pensaram fazer do proprietário de imóvel antigo um aliado?
Minha casa era do ano de 1928. Como ninguém – nem Prefeitura, nem Ministério Público, nem IPHAE – me deu uma resposta minimamente convincente à questão acima, derrubei a casa para não ficar com um mico imobiliário na mão.
Chega de hipocrisia. O projeto Taquara, Cidade Histórica, é merecedor de ações reais, sérias e urgentes. E a mais urgente de todas é dar ao proprietário do imóvel antigo o valor que ele merece. Até porque, não fosse ele ter mantido o imóvel até hoje por qualquer razão – desejo ou necessidade, esse projeto não poderia sequer ter sido um dia imaginado. Espero, sinceramente, que minha opinião tenha contribuído de algum modo para que a discussão seja positiva a todos.

Renato Konrath

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