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Esta postagem foi publicada em 13 de abril de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Pensamento pedagógico

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Os gatos são os grandes artistas da internete.

PENSAMENTO PEDAGÓGICO

Hoje, meu texto tem um pouquinho de desconforto. Alguém, desconhecido para mim, apesar de julgar estar agindo certo (quero crer), feriu alguém muito caro a mim. Feriu a ponto de fazer este último cogitar seriamente sobre seu futuro profissional. E não me venham com aquelas balelas de “quem tem firmeza de objetivos não se machuca ao tropeçar numa pedra”. Quando esses tropeços passam para o abstrato, vemos o quanto podem machucar.
Pois o meu caro alguém tropeçou nessa pedra metafórica, mas muito real em termos de machucados. Real porque, por educação, devido à posição hierárquica da pedra, ela não foi contestada ao proferir uma sentença estúpida.
Minha querida, estudante de Pedagogia, conseguiu um estágio. Animada, partiu para a luta, mas logo sentiu que algo não estava bem no caminho proposto. Seu estágio seria no programa “Mais Educação”, alardeado, pela televisão, como a redenção dos problemas educacionais brasileiros. Novamente, minhas palavras, já escritas aqui, se mostraram de uma correção a toda a prova: políticas educacionais criadas por quem não está diante dos alunos todos os dias, só funcionam em comerciais de televisão. É o caso do  “Mais Educação”, no qual o primeiro e mais básico erro é misturar crianças de idades pedagogicamente incompatíveis. Ou não é um princípio pedagógico a compatibilidade de idades? É sim. É tão pedagógico que, até os 15 anos de idade, o aluno já deve ter concluído o Ensino Fundamental. Não pode ficar junto a alunos mais novos. Logo, em cada série há uma idade ideal!
As autoridades escolares – não os professores – ignoram tais detalhes e agem como se tudo fosse um mar de rosas. Minha estagiária teve a infelicidade de interagir com uma dessas dirigentes, professoras que há anos não entram em aula e, por isto mesmo, já foram contaminadas pela política televisiva. Quando ela, a estagiária, falou para uma aluna da proibição do uso de telefone celular em aula – que, além de norma das escolas (procurem aí uma que não os proíba), é lei estadual (Lei Nº 12.884, de 03 de janeiro de 2008) – a dirigente, bondosamente, a admoestou, sugerindo-lhe que ela deveria ter “procurado entender o porquê de a aluna preferir o aparelho às atividades escolares”. O quê? É uma norma local e, mais do que isto, uma lei estadual! A estagiária viu onde estava se metendo e caiu fora dessa política de direitos para alunos e deveres para professores, contrariando, inclusive, o sistema legal. Foi insuportável!
Eu teria feito o mesmo. Mas, para dar uma satisfação àquela dirigente, antes de ela fazer outras vítimas, informo que, segundo as famosas pesquisas, ficar sem celular é um temor que afeta grande parte da população mundial (inclusive a ela própria). Não é uma razão a ser encontrada, e discutida, por uma estagiária em uma sala de aula. Estaria a dirigente sugerindo o desrespeito às normas? Ela deveria ter alguma noção disso antes de falar bobagens.

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