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Esta postagem foi publicada em 7 de agosto de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Gnote se auton

plinio121Do “Meu livro de citações”: Se o mais importante é competir, por que os prêmios só vão para o primeiro colocado?
GNOTE SE AUTON
Não gosto muito de televisão. Aliás, para ser bem sincero, não gosto nada. Mas é inevitável olhar para uma, vez ou outra, já que na minha casa existe um aparelho na sala e meus familiares não concordam obrigatoriamente com as minhas opiniões, principalmente essas sem grande significado para o desenvolvimento da humanidade, do tipo quem-vai-ficar-com-fulana no fim da novela. Concordamos nos assuntos fundamentais, por isso somos unidos. Assim, numa dessas olhadas, recentemente, chamou-me a atenção um filminho que fazia a publicidade do programa “No limite”, da TV Globo, interpretado por uma candidata ao prêmio em disputa. Nele, uma jovem bonita, mirando a câmera, declarava, com firmeza, que detestava gente burra e babaca. Apesar do linguajar um tanto agressivo, pensei: quanta majestade; que imponência soberana. Às rainhas é lícito abusar um pouco das palavras e cometer pequenos deslizes. Elas estão acima dos mortais comuns. Essa mulher me passou a firmeza das pessoas determinadas, destinadas a comandar. Vejam só, fazer uma declaração dessas sem pestanejar. Identifiquei-me imediatamente com tais sentimentos. Eu também detesto gente burra e babaca. Literalmente, não os supor…
Ei, esperem um pouco! O buraco é mais embaixo. Se fizéssemos um levantamento instantâneo, cujo grupo pesquisado fosse a população brasileira, qual seria o resultado acerca de burrice e babaquice? Pensei traçar no chão uma linha quase infinita, colocando os recenseados de um lado e, sozinha, do outro, a minha nova deusa. Então, ela diria “odeio os burros e os babacas; adoro os inteligentes e os espertos; essas pessoas tão especiais devem dar-se a conhecer; convido-as a cruzar a linha”. A cena seguinte seria fantástica: ninguém ficaria parado, salvo a própria moça. Os outros, considerando-se especiais, cruzariam a linha, avançando para o lado dela. Se eu expandisse a pesquisa para o mundo inteiro, o mesmo aconteceria. Ninguém se julga burro ou tolo.
Mas, se ninguém tem essas duas deficiências (são, não são?), as palavras daquela concorrente foram vãs. Por que falar de algo inexistente, a não ser num exercício de criatividade? Concluí que a jovem não precisa temer -– ninguém precisa -–, pois, a julgar pelos resultados da pesquisa sugerida, inexiste quem vá incomodá-la. Não há gente burra e babaca. Se existisse, num universo tão grande como a população mundial, certamente, correríamos o risco de alguém nos tachar com a mesma pecha. Logo, a garota do comercial apenas deu demonstração de prepotência ao proferir a frase, a partir de agora, maldita. E eu, por tanta admiração e concordância, fiquei no mesmo barco. Não riam. Ou vocês também nunca falaram contra os burros e os babacas?
Não adianta, carinhas! O velho Sócrates sabia das coisas. Quando ele disse: “gnote se auton” (“conhece-te a ti mesmo”), estava nos deixando uma grande lição. A excessiva humildade não leva a lugar nenhum, mas a excessiva soberba, ao contrário, leva a lugares bem piores.

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