Do “Meu livro de citações”: Escarram, cospem no chão, assoam o nariz com os dedos. Tudo na frente das câmaras de televisão e, mesmo assim, são idolatrados como exemplos a ser seguidos. São os jogadores de futebol.
PAIXÃO NACIONAL
Fiz um pequeno levantamento da minha produção para esta coluna e vi que várias vezes mencionei o vigoroso esporte bretão, maneira como era chamado o futebol lá pela década de 1950/60 do século passado. Chamar de vigoroso um esporte já é uma forma facciosa de tomar posição favorável em relação àquilo que se comenta, como se os outros esportes não o fossem. Basta pensar em qualquer atividade física disputada contra um oponente ou contra o tempo para surgir a ideia de vigor. O próprio xadrez – nem sei se é considerado esporte – encerra uma característica de vigor e estresse, embora, neste caso, mais de ordem mental. Na realidade, “vigoroso” não era bem o adjetivo usado; a palavra era “viril”, obviamente para, além de dar a ideia da força empregada, fazer a ligação com o sexo dos praticantes. Hoje, sabemos, chutar a bola já não é uma exclusividade masculina.
Classificar esse jogo como a paixão nacional colide com outra atividade há muito arraigada no imaginário brasileiro. Lembro de uma propaganda do velho Cigarros Continental. Nela, alguns homens acendiam seus cigarros e, quando passava uma bela mulher, ficavam todos olhando o seu – como diriam os franceses – “derrière”, enquanto a locução mencionava a tal unanimidade.
Voltando ao futebol, por que ele faz tanto sucesso? Segundo penso, porque, basicamente, resume a sociedade. Vemos malandragem e mentira enquanto a plateia aplaude. Ou não é malandragem louvada o gol feito com a mão por Maradona na Copa de 1986, validado pela Fifa, apesar de todo o mundo flagrar sua ilegalidade? Digam-me cá, hermanos, vermos uma ação escandalosa, contrária ao preceito básico daquele esporte, no qual é proibido utilizar as mãos quando a bola estiver em jogo, salvo o goleiro, e mesmo assim continuarmos prestigiando, não é estranho? A tal ação, entre muitas outras espúrias pelas regras, acontece em cada domingo e quarta-feira, sem que o espetáculo perca sua quase insana popularidade. Sinal que concordamos. Se a fraude é aprovada, podemos concluir que…
Querem mais um exemplo?: as trombadas (esporte é saúde!) em que, depois de fingirem dolorosos traumatismos, ao conseguirem uma falta a seu favor, os jogadores saem correndo como se nada acontecera, significam o quê? Significam mentira! E nós, torcedores, ali, apoiando e aprovando, não importa o clube, desde que a decisão nos seja favorável.
Em verdade, em verdade lhes digo: não adianta reclamar muito do senado brasileiro e do indefectível senador José Sarney (podem substituir por Renan Calheiros e quejandos). No fim das contas, cada uma dessas pessoas torce por um time de futebol, e nós sabemos que quem torce pelo nosso time não pode ser má pessoa.
Conclusão: viva a paixão nacional e que tudo o mais vá para o inferno (valeu, Roberto)!
Esta postagem foi publicada em 21 de agosto de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.


