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Esta postagem foi publicada em 18 de setembro de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Limites

plinio1212Do “Meu livro de citações”: É na equitação que o homem aceita sua natureza animal. Ele e o cavalo formam um “conjunto”.
LIMITES
Atender o distinto público é uma aventura deveras estimulante. Principalmente quando nesse atendimento estão embutidas algumas regras a ser seguidas por esse público. Tenho vivido a situação nos treze últimos anos como professor e, nos três mais recentes, como dirigente de um projeto escolar. Confesso que a experiência exige uma boa dose de atitudes normalmente consideradas maquiavélicas. Fazendo um balanço das minhas ações a esse respeito, concluo que, quando sou “público”, me admito nem sempre ser tão distinto assim. Também eu faço algumas exigências incômodas ao prestador do serviço. Bem, fazia. A gente vai aprendendo e descobrindo quantas pequenas – algumas vezes não tão pequenas, mas dessas não estou tratando aqui – transgressões tenta cometer para conformar o serviço oferecido à nossa vontade e dele tirar alguma vantagem.
O primeiro grande problema enfrentado por alguém na situação de atendente é fazer valer as datas e os horários estipulados para o serviço. Estamos acostumados a ouvir elogios aos horários de ônibus, trens e aviões rigorosamente observados na Europa. Pois tente fazer o mesmo com o início de uma prova num concurso. Sempre teremos candidatos chegando depois do horário determinado. Se o atraso for de dez segundos, por exemplo, após o fechamento dos portões, depois de uma tolerância de 30 minutos, ainda ouviremos do retardatário: “Qual é o problema? Só dez segundos não vão alterar nada”. Na cabeça do atrasado serão dez segundos, e não 1810. Doloroso, mesmo, entretanto, é quando as pessoas pedem datas especiais para o serviço, alegando ter uns “problemas pessoais” e não poder cumprir aquele calendário estipulado. E, candidamente, ainda perguntam se a gente não pode dar um jeitinho; afinal, ninguém vai saber, mesmo.
Mas não se restringe a datas e horários a problemática no atendimento ao público. Qualquer serviço oferecido tem sua mecânica de funcionamento e, dentro dela, regras para a execução. Pois essas regras são sempre contestadas, apesar de, nas inscrições, terem sido aceitas. Estão aí incluídos a exigência de documentos bem claros, fotografias recentes, cor de tinta nas respostas a uma prova, desligamento de telefones celulares e mais uma gama de ideias “tolas” (obviamente, segundo quem tenta transgredi-las).
Quais são os limites a ser observados quando se dirige uma instituição qualquer? Ou não devemos criar quaisquer regras e, simplesmente, deixar os procedimentos ao bel-prazer dos usuários? A simples existência de uma organização já implica a existência de normas de antemão obedecidas. A ninguém é dado o direito de exigir tratamento de tal forma especial que lhe proporcione vantagens não usufruídas pelos demais. Se algo for oferecido a alguém, todos os outros terão igual direito. Ora, se um pode chegar depois de um horário marcado, os outros também podem. Logo não haverá um horário a ser cumprido. Não havendo um horário a ser cumprido, não haverá o serviço prestado, pois as atividades demandam funcionários e logística para a sua consecução.
“Não custa nada permitir”, “que diferença faz?”, “é só pra mim”, ouço diariamente essas frases. Convivo com elas, lembrando sempre de uma regra fundamental: se é para ser transgredida, não se crie a lei. E, sabem de uma coisa? As pessoas passam a ter maior confiança em nós quando sentem convicção em nossos atos.
Não dirijo um aeroporto, mas, podem ter certeza: nada ficamos a dever aos aviões da Europa.

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