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Esta postagem foi publicada em 2 de outubro de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

A realidade

plinio1212Do “Meu livro de citações”: Destino é igual a plano de márquetin: só depois de passado o evento é que podemos avaliar o que e como aconteceu. Previsão, nunca.
A REALIDADE
Há pouco tempo, compareceram ao Domingo do Faustão os apresentadores do Jornal Nacional, William Bonner e Fátima Bernardes, casal em todos os sentidos, tanto profissional como privado. São pessoas que gozam de ótimo conceito midiático no país e, quem sabe? por serem casados, têm estátus maior, se comparados a outros apresentadores, no quesito credibilidade e simpatia. Talvez porque as necessidades de calor e proteção dos telespectadores tenham sido alimentadas por essa aura de intimidade familiar. A entrevista foi realizada, principalmente, para marcar o lançamento de um livro de Bonner a respeito de sua atividade e dos 40 anos daquele telejornal do qual, além de apresentador, é editor – quem determina o que vai ao ar.
A conversa com o entrevistador correu bem, pois os dois jornalistas têm aquilo que os franceses, com todo o seu “savoir-faire”, passaram a chamar de “mise en scène”. Eles sabem se comportar diante das câmeras, têm presença. Entretanto, chamou-me a atenção a abordagem de um aspecto recorrente nesse tipo de assunto: as mancadas advindas de uma apresentação ao vivo. Não me refiro às corriqueiras reclamações do Faustão durante seu xou. Refiro-me àquelas, triviais, acontecidas nos, justamente, telejornais. Apresentadores sem saber o que fazer diante da entrada de uma reportagem diversa da anunciada; câmera focando a pessoa errada num momento inconveniente; áudio levando ao ar palavras (às vezes palavrões) que não deveriam ser transmitidas; gargalhadas indevidas; situações constrangedoras. São fatos, inclusive, explorados em filmes: alguém entra correndo com a reportagem num cassete, passa por todos os corredores da emissora e, no último instante, coloca-a no aparelho reprodutor, no exato momento em que o locutor termina de anunciá-la, como se fora a coisa mais importante do mundo transmiti-la naquela hora.
Tudo isso é decorrente de uma imposição de tempos menos tecnológicos, quando não havia o recurso da gravação dos programas. Infelizmente, tornou-se um mandamento moral na televisão: noticiário tem de ser ao vivo. Pensem comigo: haverá alguma diferença se o programa tiver sido gravado com alguns minutos de antecedência? Em poucos minutos, uma equipe bem treinada pode corrigir as possíveis trapalhadas antes de sua veiculação.
O cineasta americano David Lynch declarou uma vez: “Creio que existem extraterrestres e que trabalham na televisão. A maneira de pensar dessa gente é muito estranha”. Partindo de um diretor de cinema dessa estirpe, a declaração coloca o assunto no seu devido lugar. Só gente muito estranha gosta de cutucar o tigre do erro, assim, com um palito. É patada na certa.
Apenas dez minutos de antecedência em gravação resolveriam os problemas sem determinar qualquer  diferença. Pelo contrário, a qualidade melhoraria e teríamos programas sem falhas. Até porque, quase todas as reportagens são transmitidas incansavelmente pelos outros noticiários da mesma emissora e ninguém está dando bola se a notícia foi captada agora ou há 20 horas.
Senhores extraterrestre, aprendam comigo! E ainda haveria condições de dar os furos de reportagens.

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