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Esta postagem foi publicada em 16 de outubro de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Zoológicos

plinio12121Do “Meu livro de citações”- Era um vampiro muito educado: sempre desinfetava suas presas antes de cada refeição.

ZOOLÓGICOS

Dentre minhas lembranças da adolescência, há uma que constantemente me vem assombrar. Ela aparece nos momentos mais incômodos, como um fantasma do passado. Não é algo pouco louvável feito por mim, mas, nem por isto, coisa da qual eu não possa sentir horror. E é tanto este horror que, ainda hoje, ele está aqui. Refiro-me a uma visita feita ao zoológico de Sapucaia lá pela década de 60, no século passado.
Tenho consciência de não ser um sujeito muito animado com festas ou passeios, mas estava alegre pela excursão feita com o Esporte Clube Pernambuco, o time de futebol da rua (pasmem: mesmo sendo um autêntico perna de pau, fui o grande goleador desse time). O destino foi o zoo. Lembro de um macaco jogando algo – sabe-se lá o quê, embora bem possa imaginar – numa mãe com um carrinho de bebê e acertando o filho. Estava tudo muito divertido até o momento de chegar às gaiolas das aves. Espanto! Num pequeno espaço, condores.
O condor, apesar de toda a aura romântica em torno de sua figura, não passa, como encontrei num saite da internete, de um “urubuzão” comedor de carniça. Entretanto, não é dessa particularidade que quero tratar aqui. O condor é a segunda maior ave voadora existente na natureza e pode atingir muita altura. Ou seja, se quisermos criar uma metáfora de liberdade, nada melhor do que pensarmos nesse bicho. E lá estavam eles (eram dois), confinados em poucos metros cúbicos, numa definitiva antítese à sua natureza. Meu passeio morreu ali. E também, naquele momento, nasceu um sentimento de aversão àquele tipo de parque: o zoológico.
Para que serve um zoológico? Em tese, para mostrar a fauna, quase sempre selvagem, às pessoas. É, inclusive, considerado um elemento de aprendizado. Teoricamente, quem vai a um zoológico toma conhecimento da vida animal e sai de lá mais preparado para os fatos de sua própria vida. É o mesmo sentimento motivador dos velhos circos, apresentando feras amestradas (outro grande contrassenso – quem precisa de um leão ou um tigre amestrado?). É apenas um espetáculo cruel travestido de ensinamento.
Zoológicos, bem como os circos, são resquícios de tempos em que a informação era rara. Não havia fotografia – menos de 150 anos – e muito menos cinema. Para se saber qualquer coisa relativa à vida selvagem, só mesmo mantendo seus exemplares reunidos. Disso nem índios brasileiros do Seiscentos escaparam, quando foram levados à Europa para serem exibidos.
No século XXI, temos acesso a qualquer dessas informações, bastando pressionar um simples comutador de aparelhos de videorreprodução. Os filmes estão aí para mostrar tudo da vida de qualquer espécie interessante para nós, das microscópicas bactérias às macroscópicas baleias. E nenhuma delas está aprisionada.
Zoológicos servem para algum aprendizado? Servem sim. A mim mostrou a maldade que infligimos aos outros seres que conosco partilham o planeta.

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