Do “Meu livro de citações” – Todo aquele que freqüentemente diz que “a lei está do meu lado”, está fazendo coisas, se não ilegais, antiéticas.
CAMINHOS DA BONDADE
Como existem pessoas boas, não é? Vocês até, certamente, uma vez ou outra pensaram isso de alguém ou viram, na televisão, algum velhinho agradecido se desdobrando em elogios por ter sido atendido numa necessidade. “Como o Gugu é bom!”; “o Raul Gil tem um grande coração!”; “o Luciano Huck é o mais bom da Terra!”. E assim vão se amontoando os elogios para tanta gente. Não estou falando depreciativamente dos citados. Foram os três que me ocorreram agora enquanto escrevo, mas o rol é imenso.
Num dia desses, recebi uma correspondência da Associação Cultural Santo Expedito, de São Paulo, me dando a oportunidade de entrar nessa galeria imensa de gente bondosa. No envelope, um boleto sugeria o passaporte para esse ato de benemerência. Ele poderia ser adquirido por um de cinco valores: R$ 20,00, R$ 50,00, R$ 70,00, R$ 100,00 ou, o mais importante de todos, R$ outro valor. Diante dos meus olhos vaidosos se desenrolou um grande painel iluminado, com uma simpática vovó cantando loas à minha bondade. Pagando o boleto, eu também teria aquela qualidade dos homens da televisão, que abrem mão do seu patrimônio e ajudam tanta gente. Só que eu sou um ingrato e não retribuo as bondades proporcionadas pela vida. Por isso, não mandei o dinheiro.
A quais bondades da vida me refiro? Fácil! Em agosto chegou um correio eletrônico escrito por uma generosa empresa africana, solicitando meus dados para poder me enviar um valor a que eu tenho direito (não sei como, mas isso não importa). Ele está retido nos seus cofres. É valor insignificante se olhado pelo ângulo de Bill Gates. Entretanto, apreciada do meu modesto ponto de vista a coisa muda um pouco: dois milhões de dólares. Logo pensei: “Como existem pessoas boas!” Vejam o esforço dessas criaturas, caçando-me ao redor do mundo, só para me entregar meu dinheiro. A empresa é uma companhia de seguros e fica na Nigéria. Além de bonzinhos, eles são tão puros! Confessaram que sua única pista para a procura foi meu endereço eletrônico. Meu nome fora perdido em algum labirinto burocrático, daqueles que só existem para atrapalhar a nós, os milionários. Mas isso não os impedira de cumprir a sua obrigação, pois, finalmente, haviam me encontrado.
E eu, mal-agradecido, não agi de maneira semelhante com Santo Expedito. Neguei-lhe uma contribuição. Em todo o caso, vou rever o assunto, pois o arrependimento é grande. Deixem só eu conseguir 150 dólares – a taxa cobrada pelos nigerianos por todo o seu bondoso empenho – que, quando a minha bolada chegar, mandarei alguma coisinha para a associação paulista.
Esta postagem foi publicada em 13 de novembro de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.


