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Esta postagem foi publicada em 11 de dezembro de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Profissão

plinio1212111Do “Meu livro de citações” – Uma licitação fraudulenta, dessas que costumam acontecer por aí, é uma ilicitação.

PROFISSÃO
Ter uma ocupação é, perdoem o aparente trocadilho, uma grande preocupação dos seres humanos. Daqueles integrados à vida comunitária, bem dizendo. Pelo menos, no nosso imaginário existe uma chusma (notaram o substantivo usado?; vejam mais alguns: caterva, malta, choldra, patuleia, lúmpenes, corja, súcia, ralé, gentalha, escória, bando – somos muito criativos ao tecer comentários desabonadores sobre os outros) que não se importa muito com suas obrigações e não está nem aí para essas bobagens de compromissos, etcétera e tal. Mas não estou falando da arraia-miúda (viram?; de novo!). Falo de nós, que temos aquele incansável e fabuloso espírito de labutar sempre pelo bem-estar da sociedade.
De fato, qual aspecto mais classifica uma pessoa, afora ela ter muito dinheiro e, por isso mesmo, ser bonita, simpática, confiável? É, certamente, a sua profissão, um dos assuntos mais reiterados em qualquer roda social, em qualquer encontro de velhos ou novos conhecidos. Saber a profissão do interlocutor sempre rende bons minutos de conversa. Os pais de prováveis namoradas, por exemplo, aqueles às antigas (absurdamente, existem sim – com a minha filha não, senhor!), também costumam enveredar por esse caminho. Às vezes, não conseguimos convencer a fera da nossa pureza de sentimentos só por não termos um emprego. Segundo o pensamento vigente, se alguém não trabalha, não pode ser boa coisa. Independente da turma mencionada lá em cima, os desocupados por convicção, existem pessoas desempregadas por força das circunstâncias.
Tudo isto posto, há uma questão me incomodando bastante, quando, raras vezes, olho televisão e quando leio os jornais. A mídia noticiosa tem a mania de classificar as pessoas com a tarja de APOSENTADO ou DESEMPREGADO, como se, uma ou outra, fosse um epíteto substituinte da profissão. É praticamente uma pecha. As reportagens identificam seus entrevistados como Fulano, “aposentado” ou Beltrano, “desempregado”. Mas, digam-me cá, será que não existem médicos aposentados? Será que engenheiros não perdem seus empregos? Tendo perdido, deixam de ser engenheiros? Médicos desaprendem tudo o que sabiam? Ambas as palavras grudam na pele moral de quem é identificado por uma delas, insinuando, sabe-se lá, quantas falhas de conduta.
Além disso, o que interessa aos telespectadores/leitores, se determinado cidadão é um aposentado ou desempregado? A notícia adquire algum tom mais dramático ou mais impactante se sabemos dessa condição? Tenho minhas dúvidas. Penso que tudo não passa de informação preconceituosa veiculada de maneira irresponsável, um recurso jornalístico infeliz. É inútil e cria uma ideia errônea a respeito de quem é referido por ela.
Não adianta, o conceito de choldra, patuleia, súcia está muito arraigado em nós. Mas é injusto.

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