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Esta postagem foi publicada em 2 de julho de 2010 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Craques

plinioDo “Meu livro de citações” – E dizia aquela prostituta: “Onde come um, comem dois, três, quatro…”.

CRAQUES

Escrevo ainda no embalo do resultado do jogo entre o Brasil e o Chile. Os leitores devem ter notado a minha súbita conversão ao futebol, esporte que não conta com minha total simpatia (aliás, nenhum conta). Como numa epidemia, porém, fui contaminado pelo vírus da Copa do Mundo e, como o assunto rende, lá vai minha colher para o angu.
Alguém, ao longo das últimas semanas, parodiando a campanha publicitária criada pela RBS, “Crack, nem pensar”, mencionou o técnico da seleção brasileira. Ficou algo assim: “Imite o Dunga: craque, nem pensar”. Como trocadilho linguístico, é muito bom; para não ficar fora da onda, completo: aquela campanha antidroga é uma verdadeira droga em termos de mensagem subliminar. Os usuários de cocaína, maconha e quejandos a aprovaram totalmente, pois, a dar-lhe crédito, o problema se resume ao crack, livrando-os de qualquer responsabilidade. Entretanto, existem muitos outros “nem pensar” tão necessários quanto.
Aproveito o embalo da menção ao técnico de nossa seleção para tecer alguns comentários sobre a briga protagonizada por ele e pela Rede Globo. Vou defender o Dunga, independente do resultado final da competição. Até porque, já li ameaças jornalísticas, dizendo que não importa o resultado, ele deve ser banido da CBF; alguns mais exaltados o ameaçam, inclusive, com o banimento do planeta. Uma situação destas é tão surreal quanto à do quadro “Dança dos Famosos” no último domingo, no Programa do Faustão. Um diretor de novelas, casualmente da mesma Rede Globo, filho do Paulo Goulart e da Nicete Bruno, julgou uma dupla concorrente por aquilo que eles não apresentaram, embora não houvesse uma planilha de exigências a ser seguida. Ora, durma-se com um barulho desses.
No caso do Dunga, ele é vítima do jornalismo sabe-tudo. Os jornalistas têm um poder imenso e, se não controlarem suas investidas, correm o risco de irritarem a distinta plateia. Ninguém tem obrigação de aceitar ofensas travestidas em análises técnicas. Um desses profissionais teve o peito de ironizar, insinuando que “Dunga não nos perdoa por ter sido responsabilizado, pela imprensa, pelo mau resultado brasileiro na copa de 1990”. E por que deveria? Estarão eles sugerindo outra face para poder continuar o espancamento? Mais uma coisinha: que história é esta de “nem pensar em craque”. O Kaká, o Robinho, o Nilmar, o Elano, o Maicon, todos esses, não são craques? Acho que é só a mania de procurar guampa em cabeça de égua; a dar ouvidos a toda a turba, nem precisaria existir um técnico. Bastaria uma consulta diária aos jornais, às emissoras de rádio, às televisões, fazer uma média das escalações propostas por eles e sair pro abraço. A CBF economizaria um bom dinheiro e todos ficariam contentes.
A imprensa é uma instituição fundamental numa democracia. Mas não pode perder de vista uma verdade básica: ela não é dona da verdade. Vamos torcer pela seleção.

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