Do “Meu livro de citações” – Na escola, trabalhos de alunos em grupo é a morte do ensino. E a alegria do professor folgado, pois tem menos para corrigir.
VINGT ANS
Calma, calma, eu posso explicar! Não é bem isso que vocês estão pensando. Dois textos seguidos com o título em idioma estrangeiro! Terei eu abdicado da lusitana língua? Não. Os dois títulos foram determinados pelas circunstâncias. O primeiro, espero ter ficado claro na outra crônica. Este, vou esclarecer agora.
Recebi, nesta semana, um vídeo apresentando o cantor francês Charles Aznavour, 86 anos. Cantava uma bela canção cujo tema era suas vinte primaveras. Assistir ao filme veio coroar uma viagem feita pelo You Tube nestes dias, recuperando apresentações de meus artistas preferidos ao longo dos últimos 50 anos. Foi uma travessia sentimental ou, aproveitando o clima, uma Sentimental Journey, gravada pelo Ringo Star em 1970 (essa canção já era uma visita ao passado feita pelo ex-Beatle, pois surgira com Doris Day em 1944 – ano do meu nascimento). Como diz a letra, numa tradução mais ou menos livre, “peguei a mala, fiz as reservas e marquei viagem para renovar velhas lembranças”.
A jornada mostrou-se muito agradável pelas facilidades proporcionadas pela internete; permitem-nos matar a vontade de ver, além de ouvir, nossos ídolos. Ela própria é uma espécie de metalinguagem, para os mais velhos, que não puderam, na época, usufruir do clima criado pelas músicas. Tínhamos os discos, ouvíamos o rádio e, aos poucos, víamos na televisão, mas sempre com a dificuldade de coadunar as oportunidades. Era bem difícil. Hoje, é uma recuperação do tempo passado.
Porém, se a viagem sentimental é interessante na revivescência de nossos dias mais jovens, traz consigo um viés que beira o trágico: marca definitivamente a chegada do nosso maior inimigo, o tempo. E não é a passagem de um inimigo que vai embora sem nos atacar. Na visita, ele deixa sua marca indelével. Não importam as cirurgias plásticas, os cosméticos, os exercícios. Ficaremos marcados.
Essa foi a parte mais dolorida da viagem. Passei longas horas na madrugada de um sábado, olhando as apresentações do grupo sueco ABBA (que hoje nos parece tão atual, como se estivesse ainda em turnê – só neste ano de 2010, duas bandas côveres estiveram em Porto Alegre). No entanto, a banda se dissolveu em 1983. Olhando os componentes, cantando e atualmente, que tristeza! As duas cantoras perderam seu encanto apaixonante. Anni-Frid, 65, e Agnetha, 60, continuam bonitas, mas falam como senhoras, mencionando os netos. Continuam elegantes, mas não escondem a visita do inimigo. Ele tomou-lhes algo que não retornará.
Confesso, foi muito bom, mas muito triste. E, para completar, vem o Aznavour falar dos vinte anos dele. Foi de chorar.


