Do “Meu livro de citações” – Conselho aos rapazes:
mais valem duas na mão do que uma voando.
DO ENSINO
Tenho, diante de mim, duas cópias de textos publicados na imprensa. Um, o mais antigo, do jornal Zero Hora, 13 de agosto de 1997 e o outro, da revista Nova Escola, de fevereiro de 2000. Ambos tratam de uma das grandes preocupações do mundo moderno: a escola. São duas entrevistas, cujas personagens são mulheres importantes para a tarefa de ensinar.
No primeiro texto, temos a fala da argentina Emília Ferreiro (“Escolas sem criatividade não são construtivistas”), formada sob a orientação de Jean Piaget, o idealizador do construtivismo. Na segunda (“A culpa pelo fracasso não é do aluno”), com a brasileira Telma Weisz, doutora em Psicologia da Aprendizagem, vemos suas ideias a respeito da educação.
Neste momento, faço uma rápida mudança de cenário. Corto para algumas reflexões pessoais. Existem dois verbos que, conjugados ao mesmo tempo, têm o poder de perpetuar o conhecimento. Não importa qual conhecimento, se os dois verbos trabalharem sincronizados, teremos como resultado a difusão da sabedoria.
Esses verbos são “ensinar” e “aprender”. Não, eles não se complementam; pelo menos não daquele jeito de que um não existe sem o outro. “Aprender” pode muito bem viver sem “ensinar”, embora este não se realize sem aquele. Aprendemos sozinhos o que quisermos. Existe, até, uma palavra para isso: autodidatismo. Por outro lado, “ensinar” só se realizará totalmente se alguém aprender o ensinado. Se não, todo o trabalho terá sido vão. Mas, quando alguém aprende, é a glória. Outra particularidade desses verbos: apesar de qualquer um poder aprender qualquer coisa a qualquer hora, só pode ensinar o que antes tiver aprendido. Logo, “aprender” é mais amplo do que “ensinar”.
Institucional e tradicionalmente, o lugar geométrico do ensino e da aprendizagem é a escola. A sociedade acredita nesse encontro glorioso. Entretanto, nem tudo corre às mil maravilhas entre os pombinhos. Como mulher bela e voluntariosa, a aprendizagem escapa às investidas do ensino, pondo por terra os sonhos mais românticos. Na tentativa de salvá-los – os sonhos –, como a cupidos, aos professores foram delegadas as tarefas de promover-lhes o casamento. Triste tarefa, um verdadeiro trabalho de Sísifo.
E, agora, volto às entrevistas referidas no início. Aquelas duas senhoras representam a corrente educacional que acredita que a não realização do casamento deve-se única e exclusivamente à incompetência dos cupidos. Por isso, alcovitam, criando truques para facilitar os encontros. “O professor deve fazer isso para atrair o aluno”; “deve fazer aquilo para encantar o aluno”. Mas, depois de tantos anos (mais de duas décadas), nenhuma poção amorosa resolveu o impasse. A aprendizagem, como em sabidas vezes o próprio amor, depende muito dos interesses de cada aluno.
Falei de reflexões pessoais? Nem tanto. Nesta viagem estou acompanhado por muita gente. Por isto, apesar de todo o esforço acadêmico oficial, os feitiços não funcionam. Nós somos incrédulos.


