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Esta postagem foi publicada em 22 de outubro de 2010 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Sobre a infância

Do “Meu livro de citações” – Se a reciclagem de materiais é uma necessidade nobre, não entendo por que os catadores de lixo são vistos com tanto desprezo!

SOBRE A INFÂNCIA

Vi na televisão um anúncio do banco HSBC, que tinha por tema “As crianças vão melhorar o mundo”. Como o Dia das Crianças foi na semana passada, é compreensível esse tipo de “approach”. A publicidade, vocês entendem, está sempre procurando criar ligações sentimentais entre o anunciante e aqueles que, no final das contas, devem pagá-la: os consumidores. E quem não gosta de suas crianças, não é? Com isso, a ponte fica evidente, pois, se o banco fala bem de nossos pequerruchos e demonstra tanta confiança neles, só pode ser uma instituição confiável, logo vamos apoiá-lo.
Porém a afirmação publicitária tem um furo, embora venha ao encontro de nossos mais sinceros desejos. Por isso, pelo furo, não pelos desejos, não deve ser levada a sério! Quem tem a capacidade de melhorar o mundo são os adultos. Eles criam as diferenças. Sim, sei, nem sempre tais diferenças melhoram as coisas, mas quem tem condições de mudar para melhor são os maiores. É da natureza animal o mais velho ensinar o mais novo, preparando-o para os embates da vida. Este princípio tem sido muitas vezes ignorado e, por isso mesmo, algumas dificuldades de convivência têm surgido entre as gerações. Quando digo “algumas dificuldades”, todos entendem, é refinada ironia, aliás, uma das minhas grandes qualidades.
Precisamos parar com tais ideias de que as crianças tudo podem. Quanto mais dissermos isso, mais soltinhas elas ficarão. E qual é a grande queixa de pais e de professores atualmente? Que as crianças estão muito espaçosas. Por que não estariam, não é? Tudo é feito em função delas!
Esses pensamentos românticos, do tipo “lá vem o futuro da humanidade”, “vamos regar as florezinhas para termos um lindo jardim”, coisas que, na internete, aparecem em intragáveis pauerpointes, não podem ser levados seriamente a sério (perdão pela redundância).
Devemos cuidar das crianças, é óbvio. Dar-lhes amor, carinho, boa alimentação e, principalmente ensinar-lhes bom trato social. É a chamada educação, tão vilipendiada e relegada quase exclusivamente às escolas, como se não houvesse um lugar mais importante, ainda, para isso. Afinal, em cada uma de nossas famílias, elas são os principezinhos e as princesinhas tão amados. Se deixarmos ao deus-dará, toda a nossa vida se complica.
Os adultos, jovens ou velhos, também merecem total atenção da sociedade. Sabem por quê? No mínimo, porque, se estes não tiverem condições, aquelas, certamente, não serão bem-atendidas, tornando-se, depois, por sua vez, maus adultos, sem condições de prestar qualquer assistência a quem quer que seja. É um círculo vicioso que nós, os adultos, devemos interromper.
Sugiro um outro mote para a publicidade do banco: “aos adultos cabe melhorar o mundo: ensinem bem suas crianças”. Até porque são os adultos que pagam a conta. É uma questão de sobrevivência.

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
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