Do “Meu livro de citações” – O complexo do alemão nem Freud explica.
FELICIDADE
Numa redação, cujo tema era o título deste comentário, uma aluna escreveu uma frase interessante: “Inúmeras pessoas são felizes ou acreditam ser…”. Durante a correção, parei! O que teria ela querido dizer? São ou acreditam?
Será a felicidade uma condição tão extrínseca, independente da sensação de quem a sente, que qualquer pessoa pode ver quando ela é real ou quando ela é imaginada ou, ainda, apenas fingida? Tipo assim (“tipo assim” é só para incomodar todos aqueles que vivem torrando a paciência com esta expressão): “Aquele, ali, demonstra tanta felicidade, mas ele é, realmente, um infeliz. Sua paz de espírito é apenas teatro”. Digam-me cá, como pode alguém ter essa percepção dos sentimentos alheios? Só se estiver julgando a aparente bem-aventurança do outro segundo seus próprios parâmetros. Concordo, nisto somos mestres, sempre avaliamos nossos semelhantes. Mas, para qualquer juízo, precisamos de unidades de comparação e tais comparações têm origem nas atitudes sociais. Com raríssimas exceções, nossas conclusões e deduções baseiam-se apenas nos costumes vigentes. É difícil escapar das práticas estabelecidas.
Só para ficar numa das áreas mais rapidamente associadas à sensação de felicidade, por exemplo, fomos ensinados a esperar de um grande amor a alegria total e eterna; qualquer um de nós que não se enquadre nesses quesitos será considerado infeliz. Salvo melhor juízo, é o fundamental para ser classificado positiva ou negativamente.
Eis armada a confusão: o “aparente”, neste caso, é aquilo que está aparecendo, está diante de nossos olhos. Entretanto, como em boa parte do léxico, temos, aqui, uma palavra polissêmica. O seu sentido denotativo, “aquilo que aparece”, por variação semântica, passou também a significar “aquilo que não é”. Vejam o paradoxo! O mesmo termo designa duas situações completamente antagônicas: uma, de verdade, e outra, de mentira (vá ao dicionário, comprove). Podemos, pois, classificar com ele, qualquer situação. Se quisermos usá-lo, não haverá problema. Dessa maneira, felicidade aparente serve tanto para casos verdadeiros como para casos falsos. O adjetivo pode ser encaixado sempre, sem perder sua veracidade.
Pronto, temos o imbróglio! Como se poderia tomar em consideração lógica uma proposição exarada numa afirmação baseada em condições assaz imprecisas? Não, a redação da aluna não tinha os argumentos necessários para ser levada em conta. Felicidade é um sentimento pessoal, muito íntimo; não pode ser compreendida por qualquer outra pessoa além daquela que diz senti-la. Ou, por consequência, o seu contrário, quando estivermos olhando a situação pelo outro ângulo. Nunca saberemos ao certo se alguém é feliz ou infeliz. É impossível. Não é uma infelicidade isto?


