Do “Meu livro de citações” – Ele tem muita presença de espírito: é pai-de-santo.
PESQUISAS
Não respondo a qualquer pesquisa. Entendam bem: não estou dizendo que costumo selecionar a qualidade da pesquisa para, então, decidir se vale a pena responder ou se a descarto por considerá-la “qualquer”. Estou afirmando não responder a pesquisas, quaisquer que sejam elas. Todas. Ou, melhor, nenhuma. Uma pesquisa leva em consideração que nós sempre queremos dar opiniões sobre alguma coisa; os pesquisadores nos conhecem. Nós nos consideramos muito importantes e pensamos que alguém vai nos dar atenção porque falamos algo.
Mas não é assim. Numa pesquisa, nós, acima de tudo, somos reduzidos a números. Ninguém leva em conta o nosso pensamento. Só vamos interessar se muitos outros pensarem da mesma forma.
Numa eleição é a mesma coisa. Não importam as nossas necessidades. A propaganda democrática mente nessa hora. Não importam as crenças e conclusões de uma pessoa. Importam quantos mais pensam da mesma maneira posta à disposição. Importa a massa. E tudo leva a crer que, cada vez mais, seremos empurrados na direção do brete, como gado marcado (Zé Ramalho tem razão). O mais terrível é não existir uma solução para este dilema. É muita gente no mundo!
A indústria, esperta, tenta vender a ideia do produto customizado. “Customização” é um substantivo vindo do inglês e significa justamente isto, a personalização de um produto ou um serviço. Apesar dessa jogada de márquetim, ainda assim seremos apenas uma variante de algo previamente estabelecido.
Não há chance de sermos diferentes. Até o programa de computador que estou usando para escrever este texto me faz seguir uma rotina estabelecida por alguém estranho às minhas vontades: o programador. Eu estou operando a máquina de acordo com os desejos dele. A única realidade é o texto final. O autor sou eu, mas o veículo, antes do jornal impresso, são as regras do autor do “software” utilizado para trazer minhas ideias à tona.
No livro “O choque do futuro”, Alvin Toffler, em 1978, alertava para um dos grandes problemas a serem enfrentados pelas populações do futuro. Seria a superoferta de alternativas à disposição de nossas escolhas. Nós já estamos nesse futuro. E a oferta aumenta sempre sem, entretanto, chegar à personalização total.
Explico tudo isto só para confessar uma falha pessoal. Ainda não entendi os 87% de aprovação ao ex-presidente Lula no fim do governo, levantados por uma… pesquisa. Pelos meus modestos cálculos, tudo arredondado, e baseado no resultado da última eleição – na qual, embora ele não fosse candidato, havia a sua criatura – o ex poderia alcançar, no máximo, 77%. Isso considerando ainda que, tirando os eleitores do Serra, todos os outros componentes da população brasileira, incluindo não eleitores e até criancinhas de colo, tenham emitido um juízo favorável ao Cara. Ou seja: não dá pra levar a sério. Aliás, como em toda a pesquisa, cada um conclui segundo suas intenções.
Esta é minha conclusão neste início de 2011.
Plínio Zingano


