
Do “Meu cinicário” – Mesmo com muita leitura, muita pesquisa e muito estudo, opinião continua sendo opinião! Nada mais do que opinião.
Perigo Oculto
Existe uma frase latina, assombrando a vida das pessoas na situação de procurar emprego. É a famosa expressão curriculum vitae, traduzida, quase literalmente, por “percurso de vida” e aportuguesada como “currículo”. Neste aportuguesamento, o resultado já tem embutido o “de vida”. Hoje em dia, por exemplo, ninguém diria ao candidato a uma vaga de trabalho, “traga o seu percurso”. É prerrogativa do idioma, adaptar palavras e expressões, estrangeiras ou vernáculas, sempre no sentido de mais rápida elocução.
Ignoro o quanto alguém possa sentir-se constrangido na hora de escrever um currículo. Na verdade, essa literatura (é literatura, não?) assusta os mais tímidos. Para sobressair-se aos outros concorrentes, o candidato precisa destacar as qualidades que julga ter, visando a impressionar, favoravelmente, seus prováveis futuros chefes. Muita gente, talvez na crença da humildade como bênção máxima, ficaria sem palavras escrevendo sobre si próprias. Me parece um beco sem saída! Eu, muito tímido socialmente, sempre fiquei enroscado na redação de um currículo. Por isto, quase para justificar minha timidez, jamais acreditei nessa peça literária. Na questão de procura e obtenção de um emprego, dou mais crédito às indicações de alguém próximo ao futuro empregador, servindo de fiador. É o famoso Q.I. (de “quem indicou”), um tipo de aval dado por quem confia em você. Depois da vaga assegurada, cabe ao empregado fazer de tudo, no sentido de preservar seu fiador. Mas, embora seja importante a indicação de terceiros na procura de funcionários, o sistema de curricular continua vicejando. As empresas pedem e quem quer emprego envia.
Neste ponto, as coisas ficam melindrosas. Entre as qualidades exigidas dos candidatos, há um perigo, embora oculto, muito visível. Ele ofusca qualquer outra característica do pretendente, prejudicando suas experiências, cursos, pós-graduações: é a maneira como está redigido o percurso de vida. Mesmo quando, na função requerida, não seja básica a escrita formal, os selecionadores de funcionários dão-lhe extrema importância. Pouco adianta utilizar formulários de já impressos ou pedir a um amigo para redigir sua proposta, na tentativa de burlar a exigência implícita de seu futuro patrão. O império contra-ataca: ele vai às redes sociais – muito cuidado com Facebook, Instagram, Twitter – e pesquisa os textos escritos por você bem como seus compartilhamentos. Se, além de redigir fora do convencional, você compartilha textos mal escritos, supõe-se o endosso, ignorando como seria o correto. Suas chances de uma vaga despencarão!
Por isto, ao procurar emprego, cuide seus textos e comportamento. Patrões são seres desalmados que, realmente, selecionam seus colaboradores. Mesmo quando eles próprios não escrevam de acordo com o padrão vigente na última flor do Lácio!
Por Plínio Dias Zíngano
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