Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 25 de agosto de 2017 e está arquivada em Haiml & etc..

Pescoço de cavalo

Quando falo sobre livros a qualquer tipo de público, prego a ideia de que “certos livros tem o tempo certo para serem lidos”.

Explico: às vezes iniciamos uma obra e, por alguma razão, ela não nos faz ir adiante. O que ela nos diz não é, pelo menos naquele momento, o que queremos ouvir, ou então não estamos ainda preparados para ela, para enfrentá-la, entendê-la, apreciá-la devidamente.

Mas, tempos depois, distância que varia de caso para caso, quando já passamos por diferentes experiências, mudamos, buscamos novas necessidades, aquele livro que uma vez deixamos, retorna a nós, e, nesse novo reencontro, ele nos surpreende.

Isso já me ocorreu várias vezes, e recentemente. Motivado pela vinda da banda The Who ao Brasil, pela história que fiz referenciando-a (escrevi-a premonitoriamente, e disso tenho provas, iniciei-a, sem saber ainda que viria, nas férias do verão passado) resolvi revolver-me em tudo o que eu tinha sobre a banda, ou seja, escutar álbuns baixados do youtube, rever “Tommy” e “Quadrophenia” – filmes em que os whos estão envolvidos – e retomar “Treze”, de Pete Townshend. Mas quem é esse cara? O que é “Treze”?
Bom, Pete é guitarrista, compositor, letrista e idealizador do The Who. Mais, por pelo menos dez razões, está entre os caras que revolucionaram o mundo do rock. “Treze” é um livro de histórias curtas que ele escreveu há mais de trinta anos, publicado no Brasil em 1987, e o titulo original é Horse’s Neck ( Pescoço de Cavalo), animal presente em vários momentos, seja em manifestações oníricas ou não – aliás, o simbolismo do cavalo é amplíssimo, mas fica essa análise para outra crônica. Eu não sabia bem o que esperava; na época, pus “Treze” de lado.

Agora, fascinou-me de forma que o li de uma só vez.

Um lirismo delicioso abraça um amargor profundo e um humor dolorido, uma fusão do biográfico e da ficção que a gente só vê nos textos de Jack Kerouac e no cinema de Fellini, uma percepção aguda e sensível do cenário interno (psicológico) e do externo. Autobiográfico sim. Pete é um único narrador sempre presente em pedaços da vida dele que motivam os contos (que se interligam) e que sem deixar de contar as histórias, sem perder suas características, nos surpreende quando às vezes surge exposto, ele e as situações em que se envolve, pela visão dos de ao redor.

Como eu, comprido, magro, de olhos melancólicos, o músico achou na arte seu escape, e, pelo menos no tempo de “Treze”, tem a cama cercada de livros. Intensamente escrito há 30 trinta anos, ele então com inúmeros problemas, como será/estará o Pete de 70 anos, que tocará em Porto, agora em setembro?

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