Não sei se as garotinhas de hoje ainda brincam de boneca, mas um conto sádico e cruel sobre elas (as bonecas), descoberto por acaso pelo amigo Januário, me remeteu imediatamente à minha infância. Havia poucas e criativas opções de brinquedos numa época sem internet e raros programas de televisão para crianças (isso quando havia TV em casa), mas toda a menina, obrigatoriamente, tinha que ter bonecas e panelinhas para brincar de casinha. Os meninos se divertiam com carrinhos, bolas de gude e bicicletas. E isso nos bastava, embora às vezes eu preferisse (e ainda prefiro) largar as bonecas para andar de bicicleta na rua ou disputar um campeonato de “pinica” com os guris, no pátio de casa.
Nada de videogames, muito menos celular. Nem telefone fixo tínhamos naquela época. O jeito era brincar com o mundo de faz de conta povoado pela imaginação e por elas, as bonecas. A minha primeira se chamava “Beicinho”, que, como o próprio nome diz, tinha uma carinha chorosa, com um beicinho de dar dó.
Mas dó mesmo me dá agora, ao olhar para aquela criaturinha que eu guardo até hoje no meu escritório em casa, totalmente destruída por minhas próprias mãos. Os cabelos loiros foram cortados até a raiz, num ímpeto infantil, longe dos olhos da minha mãe, em gesto ingênuo de quem pensava que os cabelos da boneca cresceriam novamente.
Os dedos de “Beicinho” estão todos roídos. Na ânsia de descarregar a raiva por não poder roer as minhas próprias unhas, a boneca levou a pior. Como se não bastasse, as bochechas, os braços e as pernas daquele ser tão amado na infância, foram completamente pintados com sinais indecifráveis de caneca Bic, que nunca mais consegui apagar.
Em outros momentos, todas as bonecas precisavam de uma lição e, por desobediência, eram colocadas de castigo, chaveadas no banheiro, junto com a dona. Numa dessas atrocidades, fiquei presa com as bonecas e precisei ser resgatada pelo meu pai, chamado às pressas do trabalho para arrombar a porta e libertar todas as reféns.
Até hoje, “Beicinho” me mira com aquele olhar choroso de quem foi sadicamente torturada pela própria dona. Em compensação, “Paulinho”, o boneco que levava o nome do meu irmão, conseguiu fugir do cativeiro, desaparecendo de casa sem cabelo, porque era careca mesmo; todo manchado de tinta azul, minha marca tatuada na pele dele para sempre; e com um olho de plástico azul enterrado no globo ocular.
Já um pouco maior, ganhei outras bonecas “mais modernas”, com roupas brilhantes e cabelos compridos. Uma delas, presente da minha madrinha, eu nunca tive coragem de tirar da caixa. Ficou ali, morta para sempre, sem um pinguinho de tinta nos braços, dedos intactos e os cabelos irretocáveis.
Sem grandes apelos consumistas, minha geração cresceu olhando a vitrine da loja do seu Cláudio Correa, bem no centro de Taquara. Ele vendia bicicletas (quando nem era moda este esporte) e lindas bonecas da Atma e da Estrela (marcas renomadas de brinquedos), que eu nunca ganhei, para sorte delas, sobreviventes sem um risquinho de caneta, com os olhos e cabelos intactos e brilhantes, mas inertes dentro daquelas caixas coloridas, desbotando ao sol, sem saber o que é a vida.
Pobres bonecas!


