
Por quem os sinos dobram?, por Roseli Santos
Diante das dificuldades que se agigantam no dia a dia, apesar das colaborações da comunidade, que auxiliam a manutenção desses estabelecimentos, seus administradores precisam implorar por recursos, que vêm normalmente da iniciativa privada e de ações do voluntariado, revertendo para a subsistência de entidades fundamentais, como o Lar Padilha, responsável pela formação, educação e bem-estar de bebês, jovens e adolescentes, abrigados sob a tutela de sua proteção.
Dos órgãos públicos, neste país devastado pela corrupção, é de onde menos se espera o aporte que deveria subsidiar, por direito constitucional, entidades como o Lar Padilha, ignorada pela grande maioria dos governantes, seja em nível municipal, estadual ou federal. Não fosse o empenho e garra dos que “mendigam” verbas para manutenção, pagamento dos funcionários, aluguel e tudo o mais de essencial para a sobrevivência dos que ali precisam estar (não por livre opção, mas por completo abandono e outras mazelas sociais), o Lar Padilha já teria sucumbido ao desespero e desânimo que se abate agora, novamente, entre os que lutam para não fechar a unidade instalada no centro de Taquara.
Como jornalista, ao longo de 33 anos de profissão, testemunho a iniciativa dos poucos empresários e pessoas da comunidade regional que, anonimamente, doam parte de seus lucros e salários para várias entidades, com possibilidade de descontos no Imposto de Renda, inclusive, ou simplesmente sem qualquer visibilidade social, com o único objetivo de ajudar o próximo, seja ele quem for.
Por outro lado, observo com certa cautela e desconfiança, os que preferem os holofotes ao menor gesto de solidariedade, o que não invalida o apoio, mas o torna fútil e superficial, no meu entendimento. Ações deste tipo poderiam ser encabeçadas em âmbito mais abrangente e menos narcisista.
Engajar-se numa causa é muito mais do que se percebe em selfies e comentários, nem sempre fiéis aos fatos, pelas redes sociais. É ter atitude de abrir mão do pouco ou muito que se tem para compartilhar com o outro, seja financeira, voluntária ou socialmente, falando. Se falta dinheiro para manter a estrutura básica do Lar Padilha é porque faltam, também, pessoas com olhar além do seu quintal e de seus próprios cargos e gabinetes.
Não é fácil sair da zona de conforto quando se tem muito mais do que o necessário para viver. Mas também não é difícil exercitar a cada dia um pouco mais de empatia por aqueles que não têm condições de sobreviver sem o amparo e proteção dos seus semelhantes, por circunstâncias alheias à sua vontade. A vida é vulnerável e exige cuidados do nascimento à morte. Quem nunca viu a fome, o desespero, o abandono e o sofrimento de um ser humano de perto, certamente não sabe por quem os sinos dobram.
Por Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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