
No Dia dos Pais, o cantor e compositor Giácomo Velasques, de Igrejinha, canta para quem já não pode ouvir, mas que ele ainda sente ao lado. “Pra Sempre” nasceu da saudade do pai, Orestes Rodrigues, falecido em 2007 aos 49 anos, e do desejo de transmutar a dor em beleza. É uma música feita de lembranças, de um luto que virou versos e de pequenos gestos que o tempo moldou em ensinamentos. O resultado é uma memória afetiva sonora que agora cai no mundo via streaming.
“A composição foi feita nos últimos anos, por um misto de sentimentos: saudade, vontade de ver meu pai mais uma vez, lembranças da casa onde a gente morou, apesar do medo de mexer nessas recordações por causa dos sentimentos afetivos acumulados ao longo do tempo”, conta Giácomo. “Mas, ao mesmo tempo, com o amadurecimento, passei a entender que as coisas são passageiras e precisam se transformar em algo melhor, dando um novo significado para esses sentimentos e momentos que ficaram no passado”.
O músico de 40 anos conta que quis transformar essa saudade em algo que pudesse ser compartilhado. “É uma música que fiz para mim, mas que carrega a intenção de chegar até as pessoas, de tocar cada um de um jeito diferente”.
Orestes, natural de Alegrete, era um pai presente de forma silenciosa. Trabalhou muito pela família e, no cotidiano, deixava gestos mais discretos do que palavra, segundo o filho. “Quando ele se foi, entendi o silêncio do ‘véio’. Na época, eu não compreendia. Hoje, percebo o quanto aprendemos com aquilo”, relembra.

A maior aproximação entre pai e filho veio após o diagnóstico de câncer, quando Giácomo tinha 19 anos. Os dois passaram a conversar mais, trocar confidências e, pela primeira vez, dizer “eu te amo” um ao outro.
“Aqueles dois últimos anos foram muito ricos. Ele me contava sobre a infância dele, sobre a relação distante que tinha com o próprio pai. Foi um período de afeto e proximidade que levo comigo até hoje”, afirma.
Essa experiência moldou também o modo como Giácomo vive a paternidade. Pai de um menino de oito anos, ele escolheu estar presente diariamente: levar e buscar na escola, ajudar nas tarefas, brincar, até entrar de roupa na piscina.
“Quis fazer diferente do que meu pai pôde fazer. Escolhi encarar os desafios para estar perto, criar memórias afetivas fortes”.
Uma lembrança vermelha e branca (e azul)
Entre as memórias mais vivas que o músico guarda do pai, está uma certa manhã de dezembro de 2006. Mais precisamente a do dia 17. Internacional e Barcelona decidiam o Mundial de Clubes daquele ano e, apesar de gremista, Orestes assistia ao jogo ao lado do filho colorado. Sentado na “cadeira do papai”, já fragilizado pela quimioterapia, vibrou com a vitória do Inter. Não por amor ao time, mas pela alegria dos filhos, Giácomo e Elder.
“Meu pai nunca falou mal de outro time, nunca desrespeitou ninguém por causa de futebol. Ele brincava, debochava, mas sempre com carinho. Naquele dia, ficou feliz porque nós estávamos felizes. O Grêmio já tinha vencido em 83, mas a gente nunca tinha visto o Inter ganhar algo assim. Foi como se o Inter tivesse ‘nascido no mundo’ naquele dia”, lembra Giácomo.
Hoje, Giácomo guarda não apenas a lembrança, mas também objetos que o ligam a essa história de conexão futebolística entre pai e filho. “Em casa, tenho um vinil do Grêmio de 1983, com o Hugo de León segurando o troféu, e uma camiseta do Grêmio do meu pai guardada”.

O ciclo se repete, mas com um detalhe curioso: Giácomo tentou perpetuar seu coloradismo no filho, mas ele acabou gremista. “Ele me liga depois dos jogos para brincar: ‘Pai, essa tua gripe é porque o Inter perdeu de novo e não ganha nada?’”, conta, rindo. Uma provocação leve, assim como o pai lhe ensinou.
A música como abraço
A música entrou como ferramenta de cura em Giácomo anos depois. Em forma de um novo ciclo afetivo. Com letras e textos acumulados, o artista começou a compor para processar emoções.
“A música me abraçou especialmente com o nascimento do meu filho, quando percebi que podia transformar sentimentos bons e frustrações em palavras. Cheguei para gravar com o Junior [Giehl] levando um caderno cheio de letras e textos que fui adaptando para canções. ‘Pra Sempre’ nasceu desse misto de saudade, dor, frustração e do desejo profundo de estar perto de novo”.
A música, que pode ser ouvida aqui, ganhou forma no Estúdio A3, em Taquara, com produção de Junior Giehl e um detalhe no arranjos que emocionou os dois.
“Decidimos incluir gaita de boca, e, quando Junior gravou a primeira guia, nos emocionamos”, conta Giácomo.
Muita coisa nasce em casa, revela o músico.
“Eu gravo a voz e o violão, estou aprendendo a mexer nos equipamentos, e o Junior tem um talento incrível, entendendo até melhor do que eu como produzir e ajudar nas gravações”.
A parceria com o produtor é marcada por sintonia. Giácomo conta que escreve as letras, grava as ideias no WhatsApp e envia para o parceiro e amigo, muitas vezes de madrugada. “Giehl responde com referências que ajudam a desenvolver as faixas”.
Momentos
No Dia dos Pais, Giácomo deixa um recado simples:
“Aproveitem os momentos com seus velhos e com os novos. Isso não volta. O mundo precisa de mais afeto, atenção e presença genuína”.


