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Esta postagem foi publicada em 16 de agosto de 2013 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Preconceitos

professor plinioDo meu tuíter @Plinio_Zingano – A sabedoria é uma fase muito rápida: dura apenas oito anos e se chama “adolescência”. Sabemos tudo e os outros não sabem nada.

PRECONCEITOS

Já tratei do assunto aqui titulado em muitas ocasiões. É impossível não abordá-lo. Até porque, me parece, faz parte de uma das políticas de governo, daquelas ditas “públicas”, tantas vezes citadas quando alguém quer fazer bonito, tentando impressionar nas conversas com amigos, em discursos públicos ou em declarações aos jornais, rádios e televisões.
Numa recente sexta-feira, assisti a uma palestra feita para estudantes, na qual o tema era justamente este, os preconceitos. A palestrante falava com a propriedade de quem sabia o que estava dizendo e, como era uma moça muito bonita, conseguia manter a atenção, principalmente, da gurizada (“do gurizado”, pelos critérios da presidenta Dilma; aceitei na boa, “chefa”), os rapazes, embora esta última afirmação, segundo os princípios vigentes para este tipo de pensamento, já seja de um preconceito atroz. Onde já se viu um elemento do sexo masculino olhar uma elementa (de novo, a presidenta) do sexo feminino e sentir atração por ela, não é? É preconceito imperdoável!
Entretanto, o fato de a palestrante saber o que estava dizendo não significa que devamos tomar como verdades incontestáveis as suas palavras. Eram, apenas, os seus conceitos sendo expostos através de uma conversa agradável, apesar de ela não estabelecer qualquer novidade na ladainha geral do politicamente correto. Nessa área de preconceitos, é muito difícil aceitar ideias contrárias às nossas como a expressão do certo, relegando nossas crenças à lata do lixo histórico-filosófico-sociológico. Ela não admitiria contestações ao seu discurso, tanto quanto nós outros.
Estava lá, eu, vendo o avançar crescente de algo que, fatalmente, iria me atingir. Era como caminhar dentro de um túnel, vendo um farol deslocando-se em alta velocidade contra mim. Enquanto a moça mencionava grupos sociais normalmente sofredores de algum tipo de preconceito, ia deixando implícito os possíveis responsáveis por essas ações. Sim, porque, nos assuntos relativos aos preconceitos, sempre existem duas entidades fundamentais: o paciente e, claro, o agente das ignomínias. Comecei a temer pela minha integridade moral.
E listava a palestrante: mulheres (como homem, tremi); negros (como branco, suei); índios (ainda como branco, gaguejei); analfabetos (como escolarizado, agitei-me); pobres (como classe-média, receei); homossexuais (esses, estranhamente, ela não citou, mas deixou implícito — o que já foi preconceituoso — e eu, como hétero, assustei-me). A coisa estava feia. Já começava a sentir olhares zangados sobre mim. Afinal de contas, o que estaria fazendo ali alguém da minha laia?
Felizmente, fui salvo na undécima hora: velhos. Alívio! Dessa vez foi por pouco. Mas ficou uma insegurança. Se tantas são as vítimas das maldades e incompreensões alheias (e são tantas as categorias possíveis de a gente defender), pergunta-se: quem realmente magoa seus semelhantes usando os preconceitos?
Era um dia frio. Puxei minha touca, tapando minhas orelhas. Isso evitou a lembrança de mais uma categoria vítima dos preconceitos: os sem cabelos.

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