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Prêmio por destruir uma família

O verão terminou tem mais de mês, a vibe já está no inverno e todas as coisas que o cerca. Até a pandemia decidiu se retirar, está em processo praticamente definitivo de ida, entretanto, todo verão costuma ter um hit ou um meme, algo caricato muitas vezes, porém, que gera retorno midiático e de fundos, inclusive.

Quem não acompanhou a história do mendigo que teve relações sexuais com a esposa de um personal trainer em Brasília? Foi no dia 9 de março, quase no fim da estação preferida de quem gosta de uma praia. As piadas foram enormes, antes de buscar se entender de fato o que aconteceu, era uma história engraçada, principalmente pelo inusitado. 

Uma mulher casada, que saia nas ruas alegando que fazia caridade aos pobres, dando alegria para eles. Um marido, que de imediato achou que o mendigo havia abusado da esposa, foi tomar satisfações, ele é desmentido e ela afirma que não fez nada contra a sua vontade. Mesmo assim ele não acredita. 

Pronto, a piada estava completa. “Corno para cá e para lá”, “mendigo vítima” e ao mesmo tempo “mito”, começou a se criar um “monstro”, digno da total falta de respeito e inversão de valores vividas pela nossa sociedade atualmente.

O “mendigo”, que se expressa com uma clareza e dicção que muitos formados em ensino superior não conseguem, rapidamente mudou de padrão na vida, concedendo entrevistas a torto e direito, tendo pretensões políticas, mandando vídeos de zoeira pelo Brasil, recebendo entradas vips, carros zero e apartamento gratuito como presente de políticos. Tudo isso, com várias festas noturnas, brincadeiras na rua, tentativas de “ficar” com mais mulheres, algumas com uso de força um pouco além da conta, de uma forma que saudável não é. Nojento seria a palavra, não?

Em paralelo, a esposa do personal, que deu fama ao menino, passou semanas em uma clínica, cuidando da sua saúde mental, vítima de sérios abalos com a situação enfrentada, não só no ato, como especialmente após a ele. Não estamos julgando valores da caráter da moça em questão, nem a santificando, porém, a necessidade de atendimento médico não foi uma mentira. Tivemos alguém com distúrbios e um ex mendigo, feliz e aproveitando.

E ainda teve a terceira via, que é o marido. O homem que virou chacota nacional, o traído, quem mais poderia ser “abraçado”. Esse não ganhou nada, fora as “galhas” da situação. Pelo contrário, esteve ao lado da esposa, cuidando dela e ajudando na recuperação. 

Assim como em relação a ela, não é objetivo deste texto dizer que ele é um herói ou merece a fama que o mendigo está tendo. De uma triste história como essa, ainda que inusitada, o que menos precisaria era palco para platéia. 

A questão é: que rumo nossa humanidade tomou, para que alguém que mesmo que indiretamente, tenha feito mal a uma pessoa, “destruído” uma família e ainda assim estar sendo visto como uma referência, um ídolo, tal qual um artista público, que batalha anos por sua profissão?

Pessoas que fazem bem para outras, que salvam vidas, restabelecem relacionamentos, trabalham honestamente, ficam de lado para seres que zombam, debocham, fazem piada do ser humano.

Qual é o sentido disso? Se perdeu a percepção do que é o certo e o errado. As redes sociais tem o lado maravilhoso, mas também tem o lado sombrio, que despertam o pior de cada um.

Tudo é engraçado, vira piada, todo mundo é humorista. Infelizmente o mundo vai de mal a pior.

Qual a solução? Resetar tudo seria a melhor opção!

Por Cassiano Gottlieb, de Taquara
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