Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 9 de agosto de 2013 e está arquivada em Caixa Postal 59.

“Privatizar o lucro, socializar o prejuízo”

A área de segurança, com certeza, é um dos pilares da administração pública, em todas as suas esferas possíveis. O governo federal investe em segurança pública, por meio do Ministério da Justiça (somente), cerca de 11,6 bilhões de reais, dados de 2013, assim como o Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria estadual de Segurança Pública, investe cerca 1,9 bilhão de reais, dados de 2011 (portal do Estado).
A segurança pode ser entendida como a proteção dos cidadãos (contribuintes), por meio de ações pontuais efetivas (militares) e de inteligência (civis). Esta proteção, é claro, pode ser bastante discutível, afinal diferentes posições ideológicas (e gestões orientadas por estas) enxergam a segurança de diferentes formas. Alguns especialistas, colocados de um lado, podem dizer que o aumento do policiamento, de pessoal e de locais estratégicos, é a solução para os problemas de segurança, assim como outros podem afirmar que ações mais pontuais, cidadãs, são mais definitivas no quesito aumento de segurança. Logo, alguns aplaudem as UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro, e a intervenção direta do Estado em locais de vulnerabilidade, enquanto outros vaiam estas mesmas ações, por enxergarem que o Estado não costuma cumprir com as suas próprias demandas, ao se colocar desta forma (ostensiva) nestes locais.
No entanto, apesar destas diferenças, todos são a favor do aumento da segurança, todos investem, de alguma forma, nesta questão (até os traficantes instalam cercas elétricas) e todos, ao se manifestarem publicamente, condenam a violência e tentam encontrar soluções para o combate desta. Logo, o Estado (instituição pública que deve zelar pelo que é público, pelo coletivo) deve gerir a questão da forma mais imparcial possível, no sentido, quase exclusivo, de buscar soluções. Seguindo esta linha, no entanto, dois eventos que ocorreram no Brasil nos últimos tempos vão na perspectiva contrária de tudo o que estou escrevendo. A visita de um ‘chefe de Estado’, que, na verdade, é um líder religioso, a um Estado laico, custou uma fatia extremamente importante do orçamento estadual (Rio de Janeiro) e federal da área de segurança para garantir a “segurança” dele, em toda a sua santidade. O grenal também. Um evento privado demandou um efetivo grandioso, mostrando, novamente, enormes contradições no que concerne o que de real é “público” no Brasil.
Muitas argumentações favoráveis a estes dois eventos colocaram a questão da importância de garantias do Estado para a realização destes, pois ambos geram lucro ao Estado, ou são importantes por questões “culturais”. Sinceramente, vendo a fundo a questão, percebemos que, bem pelo contrário, os dois vão contra o que é coletivo, ou seja, simbólico e cultural, além de causar mais prejuízos e lucros. Ajudam, bem na realidade, na manutenção da velha idéia brasileira, que, aliás, fundou o nosso Estado, “privatizar o lucro e socializar o prejuízo”. Nada mais.

Bruno Marques Schaefer,

de Taquara, graduando em Ciências Sociais
pela UFRGS

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