Airton Schirmer observa com atenção e carinho a garotada dançando Hip Hop no pátio de casa, no bairro Santa Maria. O homem simples de 49 anos é o idealizador e responsável por manter a ONG Vida Breve e Grupo Aprendizes de Hip Hop & Poesia. A entidade nasceu no bairro Eldorado, em 2007, mas desde o início deste ano passou a funcionar no terreno dele.
A verba para a construção do espaço na casa de Airton veio graças a uma ajuda financeira das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat). Foram investidos cerca de R$ 2 mil na obra. Dona Fátima Schirmer – mulher dele – e a filha do casal, Viviane Danúbia Schirmer, não pouparam forças e colocaram a mão na massa. A estrutura ficou pronta em três dias. Desde então, todos os encontros do projeto vêm acontecendo no acolhedor lar da rua Cincinato Cardozo.
O espaço é pequeno e humilde, mas está cheio de alegria e risadas. Os 25 metros quadrados da área coberta garantem a diversão e entretenimento dos meninos e meninas. Nem todos cabem na pista, mas isto não é motivo para desânimo. Espalhados pela calçada da casa de Airton, os jovens trocam dicas de passos e conversam enquanto esperam a vez para ensaiar. “Uns ajudam os outros”, destacou.
O novo local atraiu um número maior de participantes. Para dar conta da demanda, Airton comenta que foi necessário criar várias turmas: nas segundas, quartas e sextas-feiras à tarde; em terças e quintas pela manhã; e sábados de tarde. O mesmo projeto é replicado no Lar Padilha e no bairro Rio Branco, em Rolante, onde há oficinas livres. Juntamente com ele, os instrutores Fabiano Santos Oliveira, Cleiton Santos, Luciano Santos, Vanusa Garcia e a filha Danúbia auxiliam na organização dos jovens.
O projeto nasceu para preencher os vazios deixados com a morte da filha de Airton, Jenifer Schirmer, de 16 anos, em um acidente de trânsito. Hoje, arrecada sorrisos por onde passa. Somente no ano passado, a garotada apresentou-se em 54 eventos municipais e regionais. Eduardo Moraes de Lima, 12 anos, e Flávio Adilson Souza de Oliveira, 13, ambos do 7º ano da Escola Alípio Sperb, passavam pela rua quando perceberam a movimentação na casa de Airton. Curiosos pelo som que vinha do pátio, os dois chegaram, pediram licença e não saíram mais.
Uma reunião na Alípio, na quinta-feira passada, tratou sobre uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e a ONG, com objetivo de as atividades de dança também serem oferecidas às crianças do educandário. A expectativa é de que o projeto aconteça junto ao programa Mais Educação, a partir da Páscoa. Os monitores ajudarão nas oficinas de Hip Hop dentro da escola, que deverá envolver cerca de 120 estudantes. “Começamos a perceber os alunos fora das aulas, espiando os ensaios. Conversamos e resolvemos fazer a parceria”, explica a diretora Vilma Sant’Ana Bastos.Enquanto acompanha os ensaios, a meninada não desgruda de Airton e a expressão “Ô, sor!” é exclamada de esquerda à direita. A abreviação da palavra “professor” denota o respeito dos mais jovens, que apesar de não terem sido alunos de Airton, nutrem por ele um carinho fraternal. Todos, sem exceção, apertam a mão dele na saída. E não são poucos os que acabam retornando logo após os encontros, mesmo que o mestre tenha anunciado o fim da atividade.
As mãos giram no ar ao mesmo tempo em que as pernas fazem manobras com o corpo. Um radinho laranja sob uma prateleira embala os adolescentes ao som do Hip Hop. É pelos passos do ritmo nascido na década de 60 nos Estados Unidos que Airton luta para que os jovens e crianças fiquem longe das drogas. Sem os encontros semanais, os pequenos estariam pela rua, talvez em más companhias. “É importante para o disciplinamento deles e também porque aqui eles se ocupam, em vez de estarem sem fazer nada.”
Uma ajudinha para o piso
Os olhos de Airton Schirmer brilham docemente ao ver os pupilos dançando. A voz pacata e afetuosa acolhe com carinho cada criança e adolescente que o cerca. Apesar da estrutura simples montada para receber a todos, nunca faltou disposição de nenhum envolvido. As paredes ainda não foram erguidas. Isto também é um sonho de Airton. Para o momento, o que ele e toda a meninada que o segue desejam é obter piso vinílico para forrar o chão e facilitar os passos das danças. O investimento é de cerca de R$ 200,00. Interessados em ajudar podem entrar em contato pelo telefone 92640200, com ele próprio.


