Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 10 de abril de 2020 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Pura distopia, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Revolucionários hipócritas! Primeiro, destroem a hierarquia, inclusive matando. Depois, exigem respeito à hierarquia, matando, inclusive.

PURA DISTOPIA

Têm sido dias apreensivos estes de “distanciamento social” em função das medidas preventivas contra a propagação da COVID-19. Na verdade, estamos pressurosos com os resultados trágicos, se a coisa escapar do controle. E, em nosso país – noutras nações também, se lembrarmos o primeiro caso, ocultado ao mundo – o assunto tomou viés político, mais que de saúde pública. Ou seja, briga feroz para ver quem manda em quem, sem importar mortos e feridos.

            Enquanto penso nisto, meus olhos percorrem meus livros e, ali, ao lado da famosa – e apavorante – “Admirável Mundo Novo”, obra escrita por Aldous Huxley, em 1932, encontro outra, e mais fantástica, distopia literária, essa criada por Eric Arthur Blair. Como?, estimado leitor, desconhece essa pessoa? Sem problemas! Eu só descobri há poucos anos, quando resolvi me aprofundar na pesquisa sobre a mais terrível das previsões de ficção científica, mesmo tendo seu livro desde minha juventude e embora deva aceitar que todas as histórias de ficção científica sejam apavorantes. Eric era o nome real de George Orwell, e a obra à qual me refiro é “1984”.

            Pois, caríssimos, nada como a propaganda, muito insistente, para nos fazer digerir uma ideia pouco palatável. No livro de Orwell nos deparamos com um personagem, quase companheiro no nosso dia a dia: o Grande Irmão. Se você não capta logo o sentido dessas duas palavras, basta lê-las no original inglês – Big Brother – para deduzir todo o conceito sub-reptício contido nelas. O programa televisivo emula, numa casa, toda a sociedade criada pelo autor, onde a privacidade deixou de existir; tudo está pronto, e é controlado sem discussão.

            Enquanto as gentes ainda livres discutem como combater com eficiência a ameaça do coronavírus, esquecem a ameaça maior embutida nessa praga. Não é, simplesmente, um xou televisivo. É bem mais do que isso. Aceitam, mansamente, a ideia de um grande determinador em suas vidas. Há lugares onde tudo já está programado e é facilmente manipulado. Nesses locais o Grande Irmão decide! Ninguém precisa pensar. Aliás, é proibido! Desobedecer significa eliminação total.

            Ironicamente, enquanto eu procurava aumentar minhas informações sobre “1984”, com dados sobre o autor e sua vida, ao clicar num arquivo, na tela do computador explodiu o aviso: “vírus detectado – eliminado”. Era o antivírus trabalhando!

Por Plínio Dias Zíngano
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]