Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 23 de setembro de 2011 e está arquivada em Haiml & etc..

Quando entra setembro

Odiava desfilar. No primeiro grau, tímido e desengonçado, de repente me via entalado num pelotão e sob xingamentos e humilhações forçado a marchar para lá e para cá como se fossemos mariners norte-americanos indo invadir algum país ou membros da juventude hitlerista a servir de bucha de canhão ao Nazismo. Desse jeito não há como gostar de desfile, não há como se formar um sentido de pátria. Traumatizei, comecei a odiar desfiles, e, principalmente, o Sete de Setembro.
Pois é, chega setembro, e é tempo de cantar e recantar o Hino Nacional, e mais o Hino da Independência e o do Rio Grande; é também então que os professores tremem, lembram que logo serão chamados a atenção por não terem trabalhado tais hinos com seus alunos, que apenas os balbuciam ou fazem de conta que os cantam em maquinais ritos patrióticos. O estranho é que isso não se dá apenas com alunos, reparem quando o cd tranca, ou quando é preciso cantar o hino sem o acompanhamento da letra.
Também nesta rica época setembrina tudo fica vermelho, verde e amarelo, tudo fica gaúcho. Parece doença, epidemia. Tem até bicho pilchado! Salta música gaudéria de tudo o que é canto, mais bombachas, lenços, bandeiras, todos de cuia na mão, e gente que normalmente não sonharia em se vestir de tal tipo então surge como se fosse um centauro dos pampas ou a prenda da vez. Mas passa setembro e essa gauchada de vitrine logo desaparece. Aí vemos de novo os que real contém em si a alma do Sul.
Não vou forçar minha filha a participar de desfiles, vou explicar-lhe as razões do momento e dar-lhe o livre-arbítrio de escolha. Creio em outras formas de demonstrar que se sabe que há uma pátria e de que podemos homenageá-la. Seríamos mais patriotas, mais gaúchos, mais taquarenses se cobrássemos mais os direitos que nos são esquecidos, negados, retirados; se gritássemos mais contra as barbaridades cometidas a nós pelos governos; se participássemos mais das decisões que guiam os rumos da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país. Expor crianças horas a fio, muitas vezes a temperaturas extremas de calor ou frio, só para satisfazer fantasias alheias, não me parece em nada algo patriótico.
Enfim, o que ainda me motiva para um desfile é mostrar uma união que não deveria ficar só representada em tal momento cívico, mas, como já disse, se manifestar em outros aspectos que podem melhorar bem mais a nossa pátria, e realmente então nos dar orgulho de estarmos nela, de sermos ela.

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