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Publicado em 17/07/2020 15:39 Off

Quando o inverno passar

Pois o trinta de julho amanhece batendo água. Toninho Lopes, cevando o mate, negaceia através da janela, pensa no dia perfeito para ganhar uns pilas numa canastra ou, quem sabe, no pife, já que em tempo ruim não tem como ir para a lida. Sorve o chimarrão, saboreando a erva amarga e, talvez por conta disso, lembra-se, de novo, da conversa que terá em breve. É do feitio saltar cedo da cama, homem madrugador, compromissado, tratando das coisas de Dr. Justino como se fossem suas. Foi assim desde piá, no entanto, hoje, traz dentro do peito um tipo de angústia. E isso, decerto, se dá por conta da prosa de logo mais. 

Abanca-se no cepo em frente ao fogão, junta um pedaço de acácia, alimenta as chamas, depois, num saco ao lado do monte de lenhas, busca um punhado de pinhão e os joga sobre a chapa de ferro avermelhada. Acende o palheiro na brasa, dá forte tragada, solta a fumaça, ela sai parecendo suspiro, em seguida, gira a cabeça pro lado do quarto. Lá dormem a mulher e os filhos, dois machinhos arteiros que nossa.

Toninho Lopes beira a faixa dos quarenta anos e nunca em sua vida saiu daquelas terras. Vivia para servir ao patrão, o coitado do Dr. Justino, que Deus o tenha, tão dono de si e dos outros, encheu o cu de cachaça e caiu do cavalo. Quebrou pescoço, o Dr. Justino. Morreu de olhos arregalados, olhando pros campos sem fim, o gado ruminando longe. Toninho quem encontrou o corpo, queria chorar feito filho, mas foi desacorçoado pela esposa. Deus não gosta de fingimento, ela disse.

Com a morte do Dr. Justino, sua única filha voltou do estrangeiro para tomar conta da fazenda. Isso é o que deixa Toninho nuns nervos só – a conversa com Jordana, a filha do patrão. Murmura o nome da nova patroa e o sorriso pequeno se aninha no meio da barba. Murmura de novo, arrastando a língua em cada sílaba. Jordana. Rapariga graciosa era a tal. Tem para mais de quinze anos que não a vê, pois o falecido tinha encasquetado de mandar a guria estudar fora, justo quando os dois andavam se engraçando. Tchê! Bota lembrança caprichada nisso, ele pensa. Ela, com aquele olharzinho mimoso, pedindo para encilhar a égua andaluz. Depois, se mandava num tropel até a sanga, Toninho ia junto para garantir a segurança da moça. Aconteceu uns beijos roubados pelas beiradas do riacho e nas penumbras do galpão. O cheiro de fêmea nova sempre rondou seus pensamentos. E agora está de volta.  

Toninho Lopes se admira com os volteios do mundo. São feitos de violência e de paz os caminhos da terra e a vontade do vivente fica ao léu, o Dr. Justino gostava de falar dessas coisas toda vez que começava uma prosa de rumo mais impressionante. Agora se foi, bateu as botas feito um paisano qualquer. Nada adiantou briga e xingamento por causa do extravio dum terneiro guacho. E o Toninho andava bem desgostoso de ser tratado igual guri. Daí, aconteceu aquilo. Mas, no agora, ele se levanta e abre a porta. Na casa grande, distante uns trezentos metros, ainda não vê luz acesa. Jordana chegou de viagem no comecinho da noite passada, um peão veio lhe contar. Perigava dormir até meio dia. O peão alardeou, junto da patroa havia homem em trajes e modos de doutor. Pareciam amigados, se instalaram no mesmo quarto. O tal Toninho Lopes permanece parado rente à porta da meia-água, em silêncio, para não acordar os seus, olha a chuva encharcando as gramas e formando pequenas poças, e deixa o frio do inverno lhe beijar o rosto. Tomara que o sujeito goste duma canha, ele matuta sobre isso, e seja frouxo para bebida, depois duns tragos, uma carreira até o riacho dá jeito de fechar a questão.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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