Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 21 de setembro de 2012 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Que pele habitas?

Leio mais uma notícia, no mínimo, curiosa. Uma modelo de fama duvidosa, ao menos para mim que nunca ouvi falar na dita cuja, decidiu fazer uma plástica para melhorar a aparência da vagina, considerada por ela feia por natureza, para ver se melhorava esteticamente também as partes mais íntimas.
Era o que faltava. Agora, além de botox no rosto, silicone nos seios e lipoaspirações, vale também investir na remodelação de tudo aquilo que julgamos feio por natureza, ainda que ninguém, ou poucos, tenham acesso à áreas restritas, como esta, dependendo do caso, claro. Fiquei imaginando de que forma seria possível dar uma aparência mais ajeitadinha para a vagina. Talvez uma puxadinha aqui, a retirada de alguns excessos de pele ali, uma apertadinha acolá e, finalmente, como num passe de mágica, tudo ficaria novinho em folha.
Cheguei até a imaginar essa modelo, dias após a cirurgia, dando entrevistas bizarras para o Fantástico sobre os efeitos emocionais que tal feito causou na sua vida afetiva, sexual, pessoal e profissional. Não me refiro aos casos onde algum procedimento médico seja necessário e indicado por questões de saúde ou sei lá mais o quê. Falo dessa angústia e da aversão que as pessoas têm ao que é considerado ou visto como feio, na tentativa de eliminar, extirpar, sugar, extrair o que não querem por perto.
As alterações estéticas se tornam, nesse caso, uma fuga da realidade, como se, modificando a aparência externa, pudéssemos nos transformar por dentro em alguém melhor, também. Lembrei do último filme de Pedro Almodóvar “A Pele que Habito”, e cheguei a me arrepiar, novamente, embora ali a história tenha outra origem.
A tolerância à frustração me parece ser um sentimento cada vez mais raro. Ninguém quer passar por nada desagradável, nem desconfortável, nem dolorido, nem nada. Para isso, existem antidepressivos, calmantes, álcool e algumas outras drogas que nos anestesiam da vida a qualquer momento, se assim desejarmos. Para isso, existem as cirurgias de todo o tipo que eliminam aquilo que não queremos. Para isso, não existe cura. A eterna frustração levará ao fim inexorável, um dia qualquer, com ou sem o nosso consentimento.
Seguir e aceitar o que nos é dado pela vida é uma opção que pode ser adotada sem grandes frustrações. Ao contrário, se a cada vez que algo nos desagradar conseguirmos ter um olhar mais amoroso para conosco mesmos, saberemos nos enxergar, e aos outros, também, de uma maneira mais bonita, como somos realmente por dentro, na essência, sem plásticas, sem medo do patinho feio que pensamos ser, permitindo aflorar o cisne que nem imaginávamos ter crescido dentro de nós.
A pele que habitamos é esta que aí está, pronta para o que der e vier. E o que somos pode ser melhor ou pior, dependendo das cirurgias internas a que nos submetemos, especialmente aquelas que mexem e nos transformam em seres melhores por dentro, a cada dia, dependendo das experiências vivenciadas e, principalmente, daquilo com que alimentamos a nossa alma. O resto pode ser mexido, repuxado e esticado à vontade, até morrermos, de frustração eterna, lamento informar.

Roseli Santos
Jornalista

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