Rafael Tourinho Raymundo

Questão de gênero

Lembro-me duma professora, ainda nas séries iniciais do Ensino Fundamental, que estabeleceu uma regra para a turma durante a Educação Física: meninos jogam futebol e meninas jogam vôlei. Então penso em Giovane Gávio, Tande e toda a seleção masculina de voleibol que conquistou medalha de ouro nas Olimpíadas de Barcelona, anos antes. Aquela divisão arbitrária não fazia sentido.

Alguns grupos conservadores criticam a suposta ideologia de gênero – um termo cunhado por eles mesmos e difundido para desqualificar discussões acadêmicas sobre questões identitárias. A meu ver, não há nada mais ideológico que determinar, com base única e exclusivamente na genitália, como será o papel de alguém na sociedade.

Certa vez, uma pessoa que conheço fez um book de seu filho recém-nascido. O guri usava um macacão com os dizeres “sou o terror das menininhas”. Além da evidente sexualização precoce, dava para perceber com nitidez as expectativas em torno do infante. Ele nascera para ser o machão da casa, o pegador. Porque, por óbvio, a virilidade define um homem, e para prová-la é necessário ficar com todas as garotas do bairro. Imagino a frustração dos pais se o rapaz crescesse como um adolescente tímido, ou se despertasse tarde para o sexo, ou mesmo se descobrisse gostar de outros rapazes. Essas também são masculinidades possíveis, afinal.

Já as meninas, desde cedo, costumam ser tratadas como as princesinhas do lar. E não há nada de errado em ser princesa, claro. Mas também existem as bombeiras, as professoras, as atletas, as cientistas, as advogadas, as motoristas de aplicativo, as engenheiras, as empresárias. Nem todas nasceram para ser a donzela indefesa. Aliás, recentemente passamos por mais um 8 de março, data que marca a luta feminina por respeito e por condições dignas de trabalho – ou seja, pelo direito de cada mulher ser quem ela quiser. Presenteá-las com flores e bombons pode até funcionar como gentileza, mas mais bem-vindo seria abandonar atitudes sexistas.

Atitudes como a daquele deputado estadual de São Paulo dizendo que ucranianas são fáceis porque são pobres. O cara comparou a fila de refugiadas de guerra a uma fila de boate cheia de garotas excitadas, ignorando a situação de desamparo na qual elas se encontravam, e ignorando, ainda, o fato de que estuprar e subjugar vulneráveis é uma prática comum em conflitos desse tipo. Mais tarde o parlamentar pediu desculpas pela “molecagem” – como se agir feito moleque fosse prerrogativa de um homem de 35 anos exercendo cargo público.

Talvez o mundo melhorasse se o Legislativo fosse comandado menos pelos meninos grandes. Inclusive, existe um movimento que incentiva a maior adesão feminina na área. Esse é o tema, por exemplo, de um ciclo de palestras organizado por um grupo de interlocução político-empresarial daqui do Rio Grande do Sul. O evento conta com participações importantes, como ministros e até o presidente da República. Detalhe: todos homens. Não houve uma única senadora, deputada ou chefe de governo chamada para conversar sobre representatividade feminina na política. Assim fica difícil avançar no debate!

Felizmente, existem homens que têm noção dessa disparidade. Um deles é influenciador digital e vive publicando conteúdo sobre masculinidade tóxica, relacionamentos abusivos e outros assuntos relevantes. O problema é que, em mais de uma ocasião, ele plagiou trabalhos da psicóloga e professoraValeskaZanello, da Universidade de Brasília. Ao se apropriar do material e veiculá-lo sem referência à fonte consultada, o moço contribuiu para o apagamento de uma pesquisadora mulher. Em outras palavras, reproduziu o machismo estrutural que dizia combater.

Esses são apenas alguns casos que demonstram como precisamos desconstruir determinados comportamentos (e desculpem-me por usar o verbo “desconstruir”, tão desgastado nas plataformas digitais, mas é o que funciona). Enquanto reproduzirmos as ideias de sempre, a sociedade não evolui. Entre o macho pegador que joga futebol e a princesinha delicada que joga vôlei, existe uma miríade de possibilidades. Saibamos respeitá-las.

Sugestões para se aprofundar no tema:

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A língua portuguesa e os incontáveis xingamentos para mulheres

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Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
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