Retrofit: uma nova ‘roupagem’ em prédios antigos e históricos de Taquara – Conheça o Solar Pina

Após pesquisa fotográfica, acredita-se que o casarão tenha sido construído por volta de 1903
Publicado em 13/08/2021 23:56 | Atualizado em 14/08/2021 11:20 Off
Por Cleusa Silva
Fotos: Cleusa Silva/Rádio Taquara

Conhecida como retrofit, a revitalização de imóveis antigos ou históricos tem se mostrado uma forma inteligente de preservação do patrimônio cultural, dando uma nova vida a construções antigas e até símbolos dos municípios. Caminhando pela região central de Taquara é possível observarmos alguns casarões antigos que recentemente ganharam uma nova “roupagem”, como é o caso do sobrado localizado na rua Dr. Edmundo Saft, na rua lateral ao Palácio Municipal Coronel Diniz Martins Rangel, (sede da prefeitura).

Com processo de revitalização conduzido pela arquiteta Michele Biason, da B4 Arquitetura, o Solar Pina sofreu muitas intervenções, através de reformas realizadas ao longo da história, que alteraram o seu modelo original. Mas, no início dos trabalhos de revitalização, Michele e sua equipe fizeram muitas descobertas sobre a história local e a arquitetura dos séculos XIX e XX.

Segundo a arquiteta, a data marcada na fachada do imóvel é 1909. Mas, após pesquisar algumas fotos, acredita-se que o casarão tenha sido construído por volta de 1903, ano de inauguração da implementação das estradas de ferro que passavam pela região, no trecho Taquara a Canela.

“A história da construção do imóvel é incerta, não se sabe exatamente quem deu início a obra. O que sabemos é que algumas famílias proeminentes da cidade moraram nesta casa, como é o caso do coronel João Correa, responsável pela introdução das estradas de ferro na cidade e, por consequência, de todo o progresso da região”, conta Michele.

Conforme uma pesquisa feita pela genealogista taquarense Isete Barth Koliver, o prédio da rua Dr. Edmundo Saft era conhecido como o “Casarão do seu Astrogildo”, importante comerciante que residiu por mais tempo no local. Além dele, também foram identificados uma série de outros moradores, como o coronel Janguta (João Manoel Corrêa), filho do coronel João Corrêa, e o médico Luis Carniel.

Adquirido por Michele e seu marido Valmor Biason, em 2007, o casarão estava sem condições de servir como moradia, com parte da construção decaída e telhado comprometido, e então o casal Biason deixou o prédio como estava.

Em junho de 2020, preocupados com as constantes reclamações de vizinhos do prédio, sobre a invasão de usuários de drogas e moradores de rua, Michele e Valmor deram início ao projeto de revitalização do Solar Pina, que recebeu esse nome em homenagem a avó de Valmor, a senhora Josephina Biason. Conhecida como Pina, a moradora de Boa Esperança foi uma “parteira”, responsável por trazer muitas vidas ao mundo.

Fotos: Divulgação/Michele Biason

Ao constatar que, para remover apenas o telhado, o prédio todo teria que ser demolido, o casal Biason decidiu então promover a revitalização total da casa. Durante o desenrolar da construção, enquanto a equipe de pedreiros trabalhava no interior da residência, foram surgindo algumas surpresas, como, por exemplo, a descoberta de uma parede de estuque, erguida com ripas de madeira, intercalada com barro e fibra vegetal ou pelo de animal (para dar liga), parede com, no máximo, seis ou sete centímetros de espessura e muito leve.

Com a ajuda de um guindaste, a parede encontrada foi removida para outro local na casa, onde ficará em destaque, coberta por uma placa de vidro, e contendo um texto explicativo sobre sua história, para preservar e mostrar as técnicas construtivas empregadas naquela época.

De acordo com a arquiteta, também foram encontradas várias outras técnicas de construção, como as argamassas, os tijolos, a forma que era feita a fundação da obra, materiais que também ficarão aparentes, para que os futuros frequentadores possam entender um pouco da história contida no local.

“Descobrimos também alguns arcos incríveis no subsolo, que estavam escondidos debaixo de uma camada de reboco e levam para o exterior da casa. Um plano de aterro que não existia originalmente. Então, é muito demorada a reforma porque são descobertas e a gente quer preservar o máximo possível”, esclarece a arquiteta taquarense.

Para conduzir o seu primeiro trabalho de revitalização integral de um imóvel histórico, Michele buscou especialização no tema, lhe permitindo poder trabalhar em outros projetos similares. Atualmente, ela já está atuando num segundo projeto.

“O desafio maior desse tipo de projeto é respeitar o tempo. Não se trata de uma demolição, mas de uma recuperação e isso demanda paciência. Mas as coisas boas são tantas, que qualquer dificuldade é suplantada facilmente. A acolhida da comunidade e a mão de obra que trabalha com muito empenho, são as maiores recompensas até aqui”, comemora a arquiteta da B4 Arquitetura.

Com previsão de concluir a maior parte do projeto até o final de setembro, período previsto para o evento de abertura do Solar Pina, o casal Biason ainda está desenvolvendo um anexo para funcionamento de cozinha, na área externa, mais paisagismo e outros espaços que serão executados ao longos dos meses, mas já com a casa aberta.

“O prédio terá o pavimento superior destinado a espaço para eventos, sob locação, e também abrigará eventos culturais. Já a parte do subsolo deverá receber um mix de funções comerciais, aberto ao público”, projeta Michele.

Durante o processo de revitalização do Solar Pina, a profissional da B4 começou a idealizar um projeto que, em parceria com a administração municipal, poderá incentivar o turismo no município, a criação de uma espécie de “Rota Arquitetônica”, que visa a restauração da rua Dr. Edmundo Saft, conectando essa via pública à ERS-020, estabelecendo também uma ligação com a gastronomia do município.

“O projeto da rota arquitetônica ainda é só um sonho que transbordou da minha prancheta! Mas foi muito bem acolhido pelos gestores municipais e outros agentes da cidade. Tenho certeza que ele é possível e sairá do plano abstrato. Ainda não conseguimos ‘desenhar’ o projeto, porque estou muito envolvida com a obra do Solar, mas penso que para ano que vem ele já terá linhas mais concretas”, projeta a arquiteta responsável pelo Solar Pina.

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