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Rolante apresenta sistema comunitário de monitoramento dos rios após enchentes

ACISA lidera iniciativa privada que usa doações do projeto “Bitcoin é Aqui” para instalar sistema comunitário de monitoramento dos rios no município
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

Rolante foi um dos municípios mais afetados pelas enchentes de 2024 no Vale do Paranhana. Deslizamentos destruíram estradas, comunidades ficaram isoladas e o comércio e a agropecuária sofreram prejuízos significativos, evidenciando a vulnerabilidade de uma cidade marcada pelo convívio constante com o rio.

Nesta quinta-feira (11), a Associação do Comércio, Indústria, Serviços e Agropecuária de Rolante e Riozinho (ACISA) apresentou oficialmente a empresários um sistema de monitoramento do nível dos rios. A iniciativa nasceu de forma privada, a partir de doações recebidas pelo projeto Bitcoin é Aqui!, e promete entregar à população informações em tempo real para reduzir os efeitos de futuras cheias.

“Esse projeto nos dá uma ferramenta fundamental. Saber se a água vai subir 10 cm, 20 cm ou até dois metros é informação que nunca tivemos de forma precisa. Agora teremos esses dados para nos prepararmos”, destacou a direção da ACISA durante o lançamento. A entidade assumiu o compromisso de cuidar, manter e ampliar o sistema.

O trabalho começou ainda em 2023, quando uma sequência de enchentes menores acendeu o alerta. A partir dali, a ACISA reuniu associados, buscou apoio técnico e firmou parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRS), que instalou réguas de medição, coletou dados e ajudou a transformar registros isolados em conhecimento útil para a comunidade.

Já existem resultados concretos: no bairro Grassmann, por exemplo, a cota de inundação foi calculada em 3,5 metros. Se o nível do rio atingir 3,9 metros, a água começa a invadir ruas e casas. Também foi identificado o tempo de deslocamento da água: quando o rio chega a 2,5 metros no ponto conhecido como Mata Olho, leva cerca de 75 minutos para atingir o Grassmann. Alterações recentes, como a dragagem feita pelo governo do Estado, podem modificar esses parâmetros e ainda precisam ser acompanhadas.

O sistema ganhou corpo com a criação do site Alerta Rolante, que reúne dados de estações meteorológicas, do sistema GAIA dos bombeiros e dos pontos de medição dos rios.

“Não se trata apenas de colocar uma régua no rio. É preciso medir chuva, correnteza e tempo de resposta. Agora conseguimos ter tudo isso num só lugar, com gráficos intuitivos e acessíveis para qualquer cidadão”, destacou a associação.

100% aberto

O presidente da ACISA, Eduardo Timmen, reforça o caráter comunitário da iniciativa.

“Essa é uma resposta da sociedade civil, feita com recursos privados. O projeto nasceu a partir de doações do ‘Bitcoin é Aqui!’ e hoje cabe a nós assumirmos, ampliarmos e aprimorarmos esse sistema que a cidade tanto precisa”, disse Timmen. “Nosso objetivo é dar à comunidade informação confiável e em tempo real para que todos possam se preparar melhor diante das enchentes. Saber o quanto a água vai subir faz toda a diferença”, acrescenta.

Atualmente, já existem seis estações em funcionamento, cada uma com custo aproximado de mil reais. A meta é ampliar a rede de cobertura.

Estevão (à esquerda) e Timmen

O desenvolvimento ficou a cargo do programador paulista Rafael Estevão, que conheceu Rolante por meio do projeto Bitcoin é Aqui! e decidiu permanecer na cidade.

“Nosso sistema é em tempo real. A pessoa que vê a água chegar na porta pode consultar se o rio está subindo ou descendo e decidir: é hora de evacuar ou é seguro ficar em casa?”, explica. “Outro ponto fundamental é que o sistema é 100% aberto. Tanto o código quanto os dados estão sob licença livre e permissiva. Inclusive os bombeiros já estão utilizando o sistema, integrando as informações às análises e previsões deles”.

Rolante e suas enchentes: um problema histórico e crescente, segundo especialista da UFRGS

Há registros de que Rolante enfrenta enchentes recorrentes há quase um século, e o evento de 2024 mostra que a cidade continua vulnerável, mesmo com décadas de registros e estudos sobre o fenômeno. A avaliação é do professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Otto Guilherme Petry, onde trabalhou com temas de geografia, meio ambiente e educação ambiental.

“Desastre ambiental só ocorre quando há presença humana, com construções e patrimônio, em áreas sujeitas a inundações. Se continuarmos ocupando essas regiões, sempre haverá desastres ambientais. A chuva é um fenômeno natural; o que não é natural foi a forma como o município de Rolante foi ocupado”, disse Petry.

Segundo o professor, há registros de cheias desde os anos 1920 e 1930, e dados históricos são fundamentais para compreender os padrões atuais e os desafios ainda existentes.

“No bairro Rio Branco, por exemplo, existem informações detalhadas sobre distensão pluvial até a enchente de 1982, quando a força da água destruiu toda a seção transversal do rio, impossibilitando a medição precisa da altura”, conta.

De acordo com o professor, uma série histórica diária de precipitação, de 1961 a 2001, revela que as enchentes mais severas não coincidem necessariamente com os anos de maior volume de chuva. Enquanto alguns anos registraram de 2.100 a 2.300 mm de precipitação, as cheias extremas ocorreram em anos com cerca de 1.800 mm, devido à concentração da chuva em dois ou três dias. “É essa concentração que provoca o extravasamento dos rios e as enxurradas”, explica Petry.

De acordo com Petry, a geografia do vale, aliada à concentração das chuvas, torna a cidade especialmente suscetível às enchentes. Para enfrentar o problema, ele defende planejamento urbano baseado em dados históricos, monitoramento constante e políticas de prevenção que minimizem os impactos sobre a população.