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Publicado em 08/09/2020 16:27 Off

Saideira Pub

Era uma novidade naquele bar. Coisa promovida pelo novo proprietário que, segundo diziam alguns frequentadores de carteirinha, havia trabalhado muito tempo nos bares da noite carioca. Além disso, a novidade estaria em perfeita sintonia com as tendências da moda – Facebook, Instagram, Site, essas coisas. Também iria se chamar Pub, não mais bar ou boteco, mas pub. Algo inovador na pequena cidade.  E assim sendo, seu Heitor, nem por um minuto pensou em questionar a ordem do novo patrão, pelo contrário, gostou.  Afinal, seu Heitor sempre teve a fotografia como Hobby.

E o novo patrão, quando soube disso, o encarregou da tarefa de circular entre as mesas e fotografar os clientes para postar as fotos nas redes sociais. Amigos, namorados, casais, pais e filhos. Todos sorridentes e simpáticos diante da câmara. Todos virando garotos propaganda do estabelecimento. Todos evidenciando a felicidade de frequentar o “Saideira Pub”. 

Todos, menos aquele casal da mesa do canto. Seu Heitor, carismático e espontâneo, aproximou-se. O casal, na faixa dos trinta e poucos anos, foi recíproco nas cordialidades. Estava tudo muito bom, eles disseram. A música, os petiscos, a cerveja, sim, a mulher repetiu, tudo muito bom. Seu Heitor, discretamente, observou que o homem tinha aliança na mão esquerda, mas, a mulher não.

Seu Heitor perguntou se moravam na cidade. Não! Foi a reposta do homem, estamos de passagem, gostamos de conhecer novas cidades e lugares bacanas, tipo esse pub. E o homem completou, mas preferimos não aparecer em fotografias. Mesmo ela sendo a mulher mais linda da face da terra, o homem disse, com os olhos voltados para a mulher, depois, olhando para seu Heitor: “Nunca ficando bem nas fotos. O senhor compreende, né?”

Sim! Seu Heitor compreendia. Ele despediu-se do casal, com aperto de mão e desejo de felicidades. O casal se olhou, “Estamos felizes” e riram. Ele continuou com sua função enquanto se dirigia ao outro lado do pub. Encostou-se na parede, era uma parede recém pintada de marrom, onde foram dependurados alguns quadros com fotos de artistas de Hollywood e algumas cidades americanas, na base da parede, havia uma palmeirinha emprestando verde ao local. De lá, o velho fotógrafo não se furtou em observar mais uma vez o casal. E olhando dali, parece-lhe que tudo estava no lugar certo com aqueles dois. Tudo como deve ser. Sim, senhor! Ele compreendia. De fato, existem felicidades que não dizem respeito a mais ninguém. Existem felicidades que não precisam ser propagadas, ele murmurou para si.  E resolveu que, naquela noite não iria mais fotografar.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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