(Para Valentina e Henri, na véspera do Dia das Crianças)
“Eu era feliz e não sabia.” Com muita frequência ouvimos o chavão, e não nos damos conta do quanto ele se aplica ao nosso dia a dia. A frase não precisa se referir a um longo período de tempo, pode dizer respeito aos muitos momentos que vivemos, cuja importância, ou cuja poesia, não conseguimos capturar.
Mas basta que nos distanciemos, para percebermos o quanto somos pouco tolerantes com os pequenos desafios da rotina diária. Quando ficamos longe das pessoas que amamos, mesmo que por alguns poucos dias, ao nos lembramos delas, são os bons momentos que nos vêm à mente. Os defeitos desaparecem e ficam só as boas imagens. A não ser que se esteja irremediavelmente em crise com determinada pessoa, quando estamos longe, são as boas lembranças que nos alcançam.
Nesta semana, longe de Taquara, me lembrei de várias pessoas com quem convivo na minha cidade. Mas vou me ater aos meus netos, inspirada talvez na experiência de ter ouvido, ao telefone, minha neta soluçando de saudade, perguntando quando eu retornaria; ou, quem sabe, motivada por meu neto, pois soube que ele andou buscando por mim pela casa, em seus passos ainda incertos.
Minha neta deve ter esquecido os tantos nãos que lhe digo, cerceando suas explorações às minhas gavetas de bijuterias. Com saudade, ela certamente só está lembrando dos livros que leio para ela, do café que lhe sirvo na cama, da massagem que lhe faço para que durma. Já meu pequeno netinho também só deve estar lembrando que eu o acompanho e protejo na subida diária pela escadaria, que ele vence engatinhando ainda, e que tanto necessita explorar. Não deve lembrar que eu o repreendo a cada gaveta que abre para mexer onde não deve.
Eu, por minha vez, aqui distante, só lembro, de minha neta, o jeito meigo de pedir se pode dormir na minha casa, de sorrir quando a empurro bem alto no balanço; esqueço que é geniosa, que quer tudo para agora, que faz que não escuta o que não lhe interessa ouvir. Do meu netinho, só lembro do sorriso arrebatador toda vez que chega à minha porta, do jeito gracioso de ensaiar seus passos pela casa toda; esqueço que ele não tem sossego e que me canso correndo atrás dele, protegendo-o dos perigos. Nem lembro que ele repete “nein,nein”, mas mexe em tudo que não deveria tocar.
Contudo, não anseio me prolongar nestas boas lembranças. Desejo voltar logo para que Valentina não chore minha ausência, e Henri me encontre na cozinha, na sala ou no quarto, onde tem perambulado à minha procura.


