Paralelas
Esta postagem foi publicada em 15 de setembro de 2017 e está arquivada em Paralelas.

Saudade do papel

Seres recheados de palavras para designar, expressar, comunicar, reverberar, perturbar, conflitar, argumentar, opinar, contextualizar, explicar, justificar, revoltar, emocionar. Assim somos e seguimos apegados aos símbolos de alfabetos que, agrupados, dizem tudo sobre nós, humanos falantes, pensantes, ignorantes, errantes, amantes, meliantes, infantes.

São elas, as palavras, culpadas, abençoadas, escritas, faladas, pensadas ou gritadas que nos acompanham desde o nascimento até o fim, na extrema e derradeira unção com o desconhecido.

Para além disso, metafisicamente, apenas suposições, por estudo ou informação, ignorância ou educação, do que seremos longe dessas que nos definem e nos moldam em sílabas, fonemas e expressões, nem sempre retrato fiel da imagem refletida, talvez distorcida, daquilo que foi dito, escrito e descrito sobre nós.

Palavras que grafam a nossa história em instantes eternizados no papel, nos livros, nas paredes de uma caverna, em espaços físicos, palpáveis e perpetuados por quem os descobre na silenciosa leitura de seus sinais, hoje também digitalizados e muito mais fragilizados a um simples toque no teclado que pode evaporar tudo em milésimos de segundos ou simplesmente nunca chegar aos olhos ansiosos de quem não mais se detém diante do poder da contemplação.

Reescreve-se o mundo de muitas e inovadoras maneiras, em giros futuristas e tecnológicos, projetos modernos e escatológicos, à sombra do que se mantém de um passado nem tão remoto assim, alicerçando o que aí está.

Por isso o papel, a edição impressa do jornal, as revistas e os livros que resistem em simbiose com o mundo virtual, transformado, muitas vezes, em falso oráculo de tudo o que já estava ali, dito em palavras na ágora de Atenas, por quem sabia o quão importante elas seriam e são para simplesmente sermos lembrados quando desaparecermos feito pó.

As mãos que tocam essas páginas são as mesmas que procuram signos e símbolos para teclar na tela de um computador o mesmo texto, talvez as mesmas ideias, os mesmos questionamentos, as mesmas angústias ou as mesmas alegrias.

Me vem a imagem aterradora, então, de um mundo sem papel, sem o cheiro da edição daquela revista recém-chegada às bancas, da tinta do jornal que tinge os dedos, da saliva que umedece a página virada que amanhã, já lida e vencida, estampará a manchete embrulhando legumes na feira ou estendida como tapete no chão umedecido, com a foto de algum político em evidência, pisoteada, finalmente, por um eleitor desavisado.

Medo de perder de vista este exemplar, repaginado, que poderá ter sua vida preservada em arquivos, se as traças não o devorarem, ou na versão digital, se alguém lembrar disso em meio a tanta informação acumulada naquela imensa nuvem que um dia também pode se dissipar.

E eis que surge a patética e urgente necessidade, argumento irrefutável e triste constatação para nós jornalistas, em contraste extremo com essas divagações filosóficas, de que chegará o dia em que não haverá mais estoque de jornais velhos para forrar, com notícias que já nem lembrávamos mais, aquela caixa sanitária onde os nossos animais de estimação fazem suas necessidades básicas, ignorando o nosso desejo secreto de poder fazer o mesmo, diante de tantas manchetes ruins, que não poderiam ter outro destino, senão este que me ocorre agora.

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