Rafael Tourinho Raymundo

Sem ciência, sem futuro

Cientistas são pessoas especializadas em analisar fenômenos do mundo e propor soluções para desafios complexos. Graças a suas pesquisas, entendemos melhor os ciclos da natureza, o comportamento humano e as transformações da sociedade. É a partir desse conhecimento que surgem as medicações que salvam vidas, as embalagens biodegradáveis e toda a bagagem intelectual capaz de nos guiar rumo a um futuro mais justo.

No Brasil, a expressiva maioria dessas investigações acontece nas universidades, dependendo de verbas federais. Por exemplo, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) são as agências de fomento responsáveis por custear bolsas de mestrado e doutorado no país. Só que os recursos vêm minguando ano após ano. O orçamento destinado a essas instituições caiu 73,4% entre 2015 e 2021. Para piorar, há incerteza quanto à liberação dos repasses previstos para 2022.

Não estou falando de fortunas. Um bolsista de doutorado, hoje, ganha R$ 2,2 mil por mês para se dedicar integralmente à produção de conhecimento. O valor, estagnado desde 2013, dá menos de dois salários-mínimos – sem 13º salário nem FGTS, vale acrescentar. Com pouco incentivo para seguir atuando nessas condições, muitos talentos da ciência brasileira acabam buscando oportunidades no exterior, num movimento que vem sendo chamado de fuga de cérebros.

Essa realidade atinge universidades públicas e privadas. Isso porque, mesmo nas particulares, estudantes de pós-graduação geralmente dependem de bolsa para ingressar no curso. Caso contrário, têm que arcar com uma mensalidade salgada, geralmente desdobrando-se entre a pesquisa e um emprego formal para pagar as contas.

É uma situação sacrificante, mas que, apesar de todas as dificuldades, traz resultados. Eu mesmo sou cria de um Programa de Pós-Graduação de uma universidade privada. Entrei na iniciação científica, ainda na graduação, onde passei dois anos auxiliando pesquisadores e entendendo como funciona o universo acadêmico. Isso me abriu portas para o mestrado com bolsa integral do CNPq.

Anos mais tarde, retornei para o doutorado. Já não havia bolsa, mas decidi bancar a empreitada mesmo assim, ciente de que eu teria acesso a um ensino qualificado. Afinal, o PPG era nota 6 na CAPES (numa escala que vai até 7), o que significa excelência internacional. Dali saíam pesquisas inovadoras, que se tornavam referência no país inteiro e até no exterior. Portanto, estar naquele local, mesmo com todo o cenário adverso, ainda era um privilégio.

Pois, no último dia 21, a universidade anunciou que vai encerrar as atividades desse e de vários outros PPGs. Aparentemente, as contas não fecham mais. Assim sendo, novos processos seletivos foram cancelados. Quem está lá dentro poderá finalizar sua investigação, mas os professores serão demitidos à medida que teses e dissertações forem sendo finalizadas. Imagine o ânimo dessas pessoas para concluírem seus trabalhos, sabendo que deverão apagar a luz ao sair.

De início, a notícia causa raiva. Tantos anos de esforço para qualificar a ciência nacional parecem jogados no lixo. Depois, porém, a sensação é de tristeza pelas próximas gerações. Sem pesquisa atuante, os alunos da graduação não terão oportunidade de participar da iniciação científica. Desse modo, ficará mais difícil trilhar uma carreira acadêmica, caso alguém ainda almeje carreira acadêmica no Brasil.

Então, no médio prazo, a produção de conhecimento ficará estagnada. Descobertas, inovações tecnológicas e soluções de impacto para os desafios sociais serão cada vez mais raras. Com o desmonte de uma universidade, o Brasil inteiro perde. É claro que o legado continua. As pessoas que acreditam na ciência podem encontrar novos espaços para atuar, se restar-lhes alguma força. Porém, sem o respaldo das grandes instituições, essa caminhada fica bem difícil.

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Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
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