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Publicado em 05/06/2020 14:48 Off

Sem controle

Talvez devesse abrir o portão, pegar o carro e sair para rua, pensou. Revirou gavetas procurando. Tudo o que não precisava encontrou lá no fundo. Menos o controle remoto. Cadê o maldito controle, resmungou para si. Subiu as escadas. Passos curtos o levaram ao segundo andar. Olhava as esquinas dos cômodos. As dobras dos móveis. Os recantos esquecidos. O nada. Ficou parado, mais ou menos no meio do corredor que dava pros quartos e também o levaria de volta à escada. Braços caídos ao longo do corpo alto e esguio, o olhar fixo na janela, era uma janela grande, envidraçada, no final do corredor. O azul do céu se refestelava rumo ao cinza. Seu pensamento tentava entender se é-assim-que-as-coisas-são ou então como-é-que-podem-acabar-assim.

Andou. Entrou no quarto. Sentou-se na beirada da cama. Olhou ao redor. O colchão estava nu e os lençóis, com motivos asiáticos, dobrados embaixo dos travesseiros sobre o bidê. As paredes vazias, já que os quadros e retratos voltaram para as caixas de papelão ao lado do roupeiro. O roupeiro mantém uma das portas abertas e dá para ver as roupas que seriam organizadas nas prateleiras ou retiradas de lá, mas por algum motivo, o trabalho fora interrompido. Há uma cadeira de vime e, sobre ela uma mochila aberta mostrando inúmeros livros. Ele se inclinou para frente e pegou um dos livros. Abriu-o. Folheou-o, displicente, em seguida, atirou-o contra a porta. O baque surdo. 

O homem se levantou e pôs a camisa para dentro da calça, depois saiu pela porta e desceu os degraus da escada, depois entrou na cozinha e depois buscou um copo na parte de cima dum armário, pegou a garrafa de uísque no balcão e sentou-se junto à mesa. Serviu-se da bebida. Ficou bebericando e de repente lhe pareceu que a TV estava ligada e passava um desses filmes de amor, pois ouvia vozes enamoradas ecoando pela casa. Dali uns minutos, tudo silenciou. Tinha um vaso com flores murchas sobre a pia e ele supôs que o controle remoto pudesse estar embrenhado nas raízes da planta. O homem levantou e caminhou até lá. Primeiro revirou folhas e caules secos e, em seguida, emborcou o vaso em cima da pia, daí escarafunchou furioso jogando terra para todos os lados.  

Sentou-se novamente. “Não me importo de beber sozinho.” disse, e olhou pro lado, como se ali estivesse alguém. Se ele continuasse falando, confessaria a vontade de sair e dirigir pela noite, como faziam antes. Precisa, de fato, dar uma volta noturna pela cidade, quem sabe ir num dos bares que frequentavam, diria. Se continuasse falando o homem iria chorar, como fez das outras vezes e, entre soluços, lembraria de quando se conheceram. Do quanto eram bonitos. Dos primeiros cafés na repartição pública, quando os dois ainda trabalhavam lá, dos risinhos e cochichos que causavam às colegas. Do primeiro almoço. Primeiro jantar. Primeira visita em casa. E então. Quase sempre no final do dia ele aparecia fazendo da noite um tempo bom. O homem continuará bebendo e, após algumas horas, irá subir outra vez ao quarto, vai parar mais ou menos no meio do corredor e pensará, brevemente, no estado em que as coisas estão, depois se jogará na cama, sem esticar lençol nem usar travesseiro, e acordará na tarde seguinte. Um dia depois, o vizinho da casa ao lado, surpreso com a quietude repentina, irá chamar a polícia. Os policiais encontrarão um homem em estado deplorável chorando, pedindo perdão e se dizendo sem coragem de entrar na sala. Não! Não! Não! Os agentes da lei abrirão a porta da sala de estar e encontrarão outro homem, este, frio e imóvel, recostado num sofá. Descobrirão vestígios dum disparo de arma de fogo. Uma sacola com pequenos pertences, documentos e passaporte e várias roupas espalhadas pelo chão. A chave do carro e o controle remoto estarão dispostos sobre a mesa de centro.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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