Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 4 de novembro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Sem graça

Quem acompanha as redes sociais testemunha, todos os dias, uma infinidade de comentários e postagens sem sentido. A última é um deboche em relação à doença do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, sugerindo que ele faça o tratamento do câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A mórbida ironia, assim como qualquer doença, não tem a menor graça, seja com uma celebridade ou com o Zé Povinho. O sofrimento é o mesmo, com tratamento pelo SUS ou particular e, diga-se de passagem, o Sistema único de Saúde tem hospitais e profissionais de ponta, principalmente na área oncológica. Por mais que estejamos acostumados às mazelas da condição humana, é na doença e na tragédia que a verdadeira solidariedade se manifesta. São situações como essas que escancaram bem quem somos nós e para onde vamos. Recentemente, outra imagem me deixou transtornada, por mais que testemunhamos a violência do dia a dia. As filmagens e fotos do cadáver de Muammar Kadhafi, exibidas como um troféu, me deixaram uma sensação de tristeza profunda. Não pela morte do ditador em si, mas pela morbidez das pessoas que exploraram um corpo perfurado por balas com a mesma tranquilidade em que fotografam os passeios com a família. Dezenas de celulares registraram as cenas que, em segundos, já estavam na Internet para serem esquecidas meia hora depois ou até a próxima novidade. Me causa estranheza o desejo de alguns em ver a tragédia alheia, de ver o outro pior ou em situação constrangedora. Talvez isso explique porque as redes sociais estejam abarrotadas, também, de fotos com sorrisos forçados de gente que se exibe e posta uma forjada felicidade virtual. Há quem se sinta muito melhor e superior aos outros dessa maneira, ignorando a sua própria humanidade e o que ela possa lhe reservar. Ainda assim, me atrevo a afirmar que acredito em amizade sincera, em gente do bem, em solidariedade, em amor e companheirismo. Afinal, por sermos justamente seres humanos, e já somos sete bilhões no mundo, talvez ainda haja uma chance entre milhares de nos melhorarmos, de nos descobrirmos, de nos ajustarmos ao eixo da vida, mesmo que alguns ainda prefiram acabar com ela ou com a dos outros.

Roseli Santos – Jornalista

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