
A Semana da Consciência Negra de Taquara começou na quarta-feira (19) com uma roda de conversa marcada por debate direto, exemplos concretos e reflexões sobre o impacto do racismo estrutural na sociedade brasileira. O evento, promovido pelo Instituto Pró-Cidadania (IPC) em parceria com a Administração Municipal, por meio da Diretoria de Cultura, reuniu moradores, estudantes e lideranças locais no auditório 3 das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat).
A programação tem como objetivo estimular a reflexão sobre a luta histórica do povo negro por igualdade, respeito e reconhecimento, destacando a influência decisiva da população negra na formação do país.
A abertura contou com a participação de Fernando Sodré, diretor-geral da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul e ex-chefe da Polícia Civil, e do professor e escritor Orson Soares. Ambos abordaram o tema “Efeitos do Racismo Estrutural”, trazendo perspectivas complementares.
Orson ressaltou que o racismo no Brasil nasce de uma construção histórica que excluiu negros e indígenas do imaginário nacional. Ele afirmou que o país foi moldado mirando a cultura europeia e a figura do “ser branco” como referência de civilização.
“O indígena que aparece nessa ideia de nação é o indígena morto, né? E o negro é o negro escanteado, com sua cultura negada e tratada como inferior”, disse. Para ele, essa herança deixou marcas profundas: “O racismo estrutural se manifesta de muitas formas: desde as relações pessoais até a busca por emprego e a própria questão da segurança pública. Basta ver que vários corpos negros são tratados como corpos descartáveis”.
O professor enfatizou que transformar essa realidade passa pela educação. “Como é que a gente faz essa retomada de humanidade? Através da educação. Educar o Brasil para a diversidade e para a construção de um país em que essas barreiras do racismo estejam realmente superadas”.
Orson também destacou a contribuição de intelectuais e artistas negros, de Cartola e Jorge Ben ao movimento hip-hop, e apontou a importância das políticas de reparação na ampliação do acesso universitário. Ele chamou atenção para o que define como “racismo de facilidades”.
“A facilidade de trânsito para chegar a uma universidade, para ocupar cargos públicos de prestígio. Coisa que, infelizmente, foi negada à comunidade preta até por um projeto político”.
Mazelas da colonização
Ao introduzir o debate, Sodré explicou que seu objetivo era abordar o racismo estrutural e, depois, mostrar como esse fenômeno impacta a vida das pessoas e da sociedade, especialmente no Brasil e em países que vivenciaram processos de colonização.
“Para discutir racismo estrutural, precisamos olhar para os antecedentes históricos. Não tem como falar da formação social brasileira sem tratar desse passado, e, no nosso caso, ele está diretamente ligado às raízes da escravidão”, afirmou.
Ele diferenciou os vários tipos de escravidão existentes ao longo da história, enfatizando que o foco ali não era a escravidão por guerra ou por dívida, mas sim a escravidão colonial, na qual grupos europeus sequestraram, compraram ou receberam pessoas africanas, desestruturando famílias inteiras e transportando homens, mulheres e crianças para as Américas como mão de obra forçada para produção de riqueza.
Sodré destacou que, à época, a escravidão negra era parte de um sistema econômico, ligado à acumulação de capital europeu e à exploração colonial. “As plantations nos Estados Unidos, os ciclos da cana, do pau-brasil, do ouro no Brasil. Todos foram sustentados pela mão de obra escravizada”, explicou.
Ele também reforçou a importância do letramento racial ao diferenciar os termos “escravos” e “escravizados”, lembrando que “ser” implica uma condição permanente, enquanto “estar escravizado” aponta para uma imposição violenta, aplicada externamente.
Ao detalhar o processo histórico brasileiro, Sodré comentou sobre as leis que tentaram proibir o tráfico negreiro – a de 1831, conhecida como “lei para inglês ver”, e a Lei Eusébio de Queirós, de 1850 – além da Lei de Terras, promulgada no mesmo ano e que restringia o acesso à propriedade àqueles que tivessem recursos financeiros para comprar terras, excluindo a população negra recém-liberta.
Para ele, esse conjunto de decisões políticas e econômicas evidencia como o país estruturou mecanismos para preservar privilégios e impedir que pessoas negras tivessem acesso a bens de produção, perpetuando desigualdades que ainda se refletem na sociedade brasileira.


