Com direito a bate boca entre vereadores e a uma sessão marcada por vários momentos confusos, com falta de entendimento sobre as disposições do regimento interno, dois parlamentares de Taquara anunciaram renúncia às funções na Mesa Diretora do Legislativo. Mais do que isso: dois partidos de sustentação à base do atual governo de Taquara retiraram o apoio ao presidente da Câmara, Eduardo Kohlrausch (PTB). A confusão marcou a sessão ordinária de terça-feira do Legislativo e ainda poderá ter consequências nas próximas reuniões.
No começo da sessão desta semana, o vereador Telmo Vieira (PTB), ainda ocupando a função de secretário da Mesa Diretora, pediu a palavra ao presidente da Casa. Na ocasião, anunciou sua renúncia à função de secretário, reclamando das atitudes de Eduardo no comando da Câmara. Para Telmo, existe um acordo entre PTB, PP e PMDB, que deu aporte para a eleição de Eduardo, mas este não vinha cumprindo o combinado de alcançar economias da Câmara ao Executivo. Na sequência, pediu a palavra o vice-presidente do Legislativo, Roberto Timóteo (PP), o qual também anunciou sua renúncia à função, deixando a Mesa Diretora.
Questionado por Panorama, o vereador Timóteo afirmou que a decisão de saída da Mesa foi tomada por seu partido, contrariado com as posições de Kohlrausch, que, segundo ele, não estão sendo compatíveis com o que a sigla pensa para Taquara. Citou um clima de temor entre os funcionários por conta da forma como Eduardo faz as cobranças. Além disso, reclamou que, desde que passou a integrar a Mesa, não foi consultado para nenhuma das medidas tomadas pelo presidente.
Após a renúncia dos dois colegas, o presidente Eduardo anunciou que faria a eleição para a escolha dos dois novos integrantes das funções na sessão da próxima semana. Contudo, depois de ser cobrado pelo vereador Luis Carlos Balbino (PTB), Kohlrausch acabou aceitando promover a eleição na sessão de terça-feira. Chamados a indicar membros à Mesa Diretora, o PTB, PP, PMDB, PDT e PSDB não formalizaram nenhum nome para os cargos de secretário e vice-presidente. Valdecir Almeida, representante do Pros, e Moisés Rangel, do PSC, indicaram seus nomes às funções de vice-presidente e secretário, respectivamente. Contudo, colocada a chapa em votação, oito vereadores foram contrários (as bancadas do PP, PTB e PSDB), tendo sete favoráveis. O presidente, contudo, entendeu que, se tratando de chapa única, as manifestações são favoráveis ou de abstenção. Com isso, declarou eleita a chapa composta por Almeida e Moisés.
Com essa decisão, os vereadores contrários tentaram não dar quórum para a continuidade da reunião, se retirando do plenário. Foram embora os vereadores Adalberto Soares (PP), Arleu Oliveira (PP), Guido Mário Prass Filho (PP), Luis Carlos Balbino (PTB), Roberto Timóteo (PP), Sandra Schaeffer (PSDB) e Sirlei Silveira (PTB). Contudo, dos contrários, Telmo Vieira continuou na sessão, o que permitiu a sequência da reunião. Após a votação dos projetos de lei que estavam na pauta, o presidente Eduardo anunciou que houve confusão na eleição anterior dos integrantes da Mesa Diretora. Para tanto, fez uso de um ato administrativo, anulando a eleição. O presidente fez nova votação para as funções de secretário e vice-presidente, com os mesmos indicados para os cargos, Moisés Rangel e Valdecir Almeida, respectivamente. Eles tiveram sete votos favoráveis e uma abstenção, de Telmo Vieira. Neste momento, além de Moisés, Almeida, Telmo e Eduardo, estavam presentes à reunião os vereadores Lauri Fillmann (PDT), Nelson Martins (PMDB), Régis Souza (PMDB) e Adalberto Lemos (PDT).
Líder do PTB critica Eduardo e diz que presidente está descumprindo acordos
Presente à reunião da Câmara de Vereadores, o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Taquara, João Luiz Ferreira, se manifestou à reportagem do Panorama. Em primeiro lugar, o dirigente da sigla esclareceu que a renúncia do vereador Telmo Vieira (PTB) à função de secretário da Mesa Diretora foi previamente acertada com o partido. Ferreira disse que o PTB está, há algum tempo, descontente com ações do presidente Eduardo Kohlrausch à frente do Legislativo.
Segundo Ferreira, em primeiro lugar Eduardo estaria descumprindo acordos, não garantindo que, em 2016, a presidência da Câmara ficará com o PP, como indicava acerto prévio entre as siglas que dão sustentação à atual administração municipal. Além disso, Kohlrausch não estaria cumprindo o combinado para os indicados à presidência do Legislativo, de que a Câmara faria o máximo de economia possível, repassando à Prefeitura os recursos para destinação ao setor de saúde.
O presidente do PTB ainda acusou Eduardo de imprimir um “regime militar” na condução dos funcionários da Câmara, e que todos estariam acuados no Legislativo. Ainda segundo Ferreira, Kohlrausch teria tido tratamento descortês e mal educado com as vereadoras Sandra Schaeffer e Sirlei Silveira, além do próprio prefeito Tito Lívio Jaeger Filho, que teria sido ofendido por Eduardo na frente de outras autoridades em uma reunião. João Ferreira, que também é secretário municipal de Administração, elencou, ainda, outras questões que, segundo ele, levaram o partido como um todo a rejeitar as atitudes do presidente da Câmara.
Por isso, o partido decidiu por se retirar da Mesa Diretora, enfatizando que Eduardo não fala mais em nome do PTB no órgão que dirige a Câmara. Ferreira pontuou que Kohlrausch, atualmente, tem dito que não se sente confortável no PTB e, por isso, ficaria feliz se houvesse uma janela que permitisse a sua saída da sigla, pois não há mais ambiente entre os trabalhistas.
Também procurado por Panorama, o presidente do PP, Osmar Gonzaga, afirmou que a renúncia de Roberto Timóteo ocorreu porque a sigla manteve o compromisso firmado com o PTB para sustentação à administração. Segundo ele, no momento em que o PTB se mostrou insatisfeito, não havia porque dar continuidade à parceria no comando do Legislativo. Além disso, Osmar ressaltou que os vereadores da sigla também estavam insatisfeitos com as atitudes do presidente Eduardo.
Eduardo chama de teatro a ação dos colegas
O presidente da Câmara de Vereadores, Eduardo Kohlrausch (PTB), também falou à reportagem do Panorama sobre os acontecimentos de terça-feira no Legislativo. Primeiro, disse entender que a ação dos colegas foi orquestrada previamente, resumindo a sua posição de que tudo que se passou foi “um teatro”. Além disso, Eduardo afirmou que a motivação para a rebelião de terça-feira foi a demissão da esposa do presidente do PTB, João Luiz Ferreira, que trabalhava em cargo de confiança no Legislativo. Consultado por Panorama, Ferreira negou essa hipótese, e disse que a decisão do PTB vinha sendo discutida há mais tempo, pelas atitudes arbitrárias de Eduardo.
O presidente da Câmara também atribuiu os fatos à relação conturbada com o prefeito Tito Lívio Jaeger Filho, a quem acusou de não estar cumprindo as promessas de campanha. Sobre este ponto, o prefeito Tito disse ao Panorama “que o plano de governo está sendo cumprido exatamente dentro das nossas condições e dentro das prioridades que elegemos e combinamos com a população, ou seja, nas áreas de saúde, vagas na educação infantil e pavimentação asfáltica.” O vereador Eduardo reconheceu, no entanto, que, numa reunião, chamou o prefeito de mentiroso, mas que, no dia seguinte, foi até o chefe do Executivo e pediu perdão. Tito disse ao Panorama que não comentaria este episódio, pois concentrará “energia em ações que ajudem Taquara”.
Sobre as acusações do presidente do PTB, Eduardo disse que não pode falar em relação à votação para a presidência do ano que vem, pois o fato sequer aconteceu. Além disso, em relação às economias para o setor de saúde, Eduardo afirmou que já há compromisso da Câmara em destinar R$ 100 mil para reformas na recepção do hospital, o que demonstra que o Legislativo continuará a ajudar a área. Eduardo ainda salientou que, nos dois primeiros anos, nem todas as economias da Câmara foram destinadas à saúde e, nestas ocasiões, o PTB não reclamou. O presidente também negou a suposta existência de “regime militar” na Câmara, afirmando apenas que imprimiu algumas regras para o bom funcionamento do Legislativo. Mesmo assim, Eduardo refutou a alegação de clima ruim entre os funcionários da Casa.
O vereador ainda negou que tenha sido mal educado ou áspero com as colegas Sandra Schaeffer e Sirlei Silveira, alegando que as duas, em várias ocasiões, foram ásperas com ele. Sobre a discussão prévia de projetos com o partido, Eduardo afirmou que não vinha tendo possibilidade nos últimos tempos, pelo clima existente dentro da sigla. Eduardo não falou nada sobre seu futuro partidário. Em relação à eleição dos novos integrantes da mesa diretora da Câmara, afirmou que a situação está sendo estudada pelo setor jurídico do Legislativo.
Sandra e Sirlei reclamam das ações de Eduardo
Questionadas pela reportagem do Panorama sobre as informações divulgadas pelo presidente do PTB, João Luiz Ferreira, de que teriam sido vítimas de má educação e tratamento descortês dispensado pelo presidente da Câmara, Eduardo Kohlrausch, as vereadoras Sirlei Silveira (PTB) e Sandra Schaeffer (PSDB) confirmaram o revelado por Ferreira. Segundo elas, o relacionamento de Eduardo com todos os colegas está sendo conflituoso, bem como com os funcionários do Legislativo.
De acordo com Sandra, independentemente do partido e das composições pessoais, quando o respeito deixa de existir, as relações se tornam insustentáveis. Ela disse que houve pelo menos três episódios em que Eduardo teria se manifestado de forma arbitrária. A vereadora disse que concorda com o rompimento que acarretou em renúncia de dois parlamentares dos cargos da mesa diretora, a partir de que acordos prévios não estavam sendo cumpridos.
A vereadora Sirlei afirmou ao Panorama que Eduardo, desde que assumiu a presidência, está agindo de maneira arbitrária e deselegante. Segundo ela, por pelo menos cinco vezes, quando questionado sobre suas decisões, Eduardo teria dito à vereadora que, “quem manda na Câmara é ele”. Além disso, Sirlei afirmou que o presidente foi ofensivo com o prefeito Tito na frente de várias pessoas, e que não oferece oportunidade de discutir vários assuntos do Legislativo. Por isso, a vereadora declarou seu apoio à renúncia de Telmo Vieira e Roberto Timóteo.
Matéria publicada na edição impressa de 26/06/2015.


