
SER OU NÃO SER
Nunca pensei tanto na morte, ou sobre a morte. Ou melhor, sobre a vida. Sobre o que dela fica entre as madeiras de um caixão, guardado no cimento das gavetas, das criptas, das “carniceiras”. Depois de um ano, o que eu encontraria do que antes foi um ser que falava, que ria, que andava -mesmo com a dificuldade trazida pela idade, que ainda calculava como se tivesse um cérebro eletrônico, que lia todos os dias os principais jornais, que tinha uma memória excepcional – lembrava da história de Taquara desde seus tempos de criança até seus 94 anos. O que eu encontraria dessa pessoa, completado um ano de seu falecimento, dentro do saco em que ela teve que ser enterrada? O que eu encontraria daquele que, por cinquenta e seis anos, foi meu pai?
Sempre que preciso estar entre túmulos vivencio a passagem do Hamlet, na qual o dinamarquês príncipe que se finge de louco, e seu amigo Horácio, entram num campo santo. Hamlet então se depara com a cova daquele que foi o bobo Yorik. A cova está remexida, a caveira do bobo aparece entre a areia. Hamlet apega, a contempla e diz “quantas vezes nos joelhos daquele que foi o dono deste rosto, sentei para brincar e quantas vezes tal rosto, com deliciosas caretas, me fez rir”. Erroneamente mostram certas versões que é segurando tal caveira que Hamlet solta o famoso “Ser ou não ser”. Na verdade, ele fala esse bordão, quando, sozinho, perturbado, num dos escuros corredores do palácio real, está a meditar sobre o sentido da existência.
O Covid Fez com que, eu, como Hamlet, me desse conta, agora mais profundamente, bem mais profundamente, da minha fragilidade, da minha brevidade, da efemeridade de tudo, de que somos somente transitórios personagens levados pelo “som e a fúria” de uma história sabe-se lá por quem escrita. Claro que, antes do vírus surgir, eu, e também você, igualmente poderíamos morrer a qualquer hora, embora alguns acreditem que todos temos o nosso tempo contado aqui na Terra. Mas, tendo cuidados, sabíamos que poderíamos atrapalhar, driblar os planos da dona Morte por mais uns dias, e assim permanecermos, por um pouco mais de tempo, eternos, pelo menos aqui, neste plano.
Com o Covid, porém, tal ideia se foi, pois ele derrubou os cuidados. Nos prevenimos, e mesmo assim ele nos pegou. Não sabíamos, e ainda não sabemos bem, de que lado vem tal inimigo, e isso nos fragiliza, nos perturba ao nos mostrar o quanto estamos às mãos de forças além das nossas, e que nossas vidinhas cotidianas, rotineiras, a qualquer momento podem ser viradas de cabeça para baixo por elas. O Covid jogou em nossas caras o quanto somos patéticos, o quanto a raça humana é parva, primeiro, por se interessar e investir na própria destruição, segundo, por não saber depois como parar a burrada que fez. É mais fácil para nós causar o erro, do que depois apagá-lo. E isso assusta. Com isso, como não se irem assim as nossas certezas?
Há um tempo atrás eu dizia que não tinha medo do morrer em si, mas do como morrer, isso sim. E as mortes pelo Covid, todos sabem, mas muitos parecem ignorar, se mostraram horríveis: sufocamento, entubação. Parentes levando seus próprios entes queridos a esse horror. Morrer de Covid; não, não quero. Passar a doença para outros, muito menos isso. Mas, quem garante que essa última opção não aconteça? Ou até já não tenha acontecido? Teremos que conviver com ele para o resto dos nossos dias, esse é o consenso, pelo menos por enquanto, da Ciência. Com ele e suas variantes teremos que nos adaptar, e os que tiverem melhor imunidade, com vacina ou sem, serão esses os sortudos a passarem levemente, ou incólumes por tal praga. Bem vindo ao amanhã, onde agora somos todos loucos Hamlets vendo que a vida, ao mesmo tempo tão fascinante, tão incrível, na verdade, em sua essência, não é nada mais que fumaça, névoa fugaz, e que rápida, em nada, se desfaz. Enfim, onde estará agora o pai que tive, após eu tê-lo deixado, embora entre alguns conhecidos, lá longe, longe de casa? O que fica de nós entre as madeiras de um caixão, entre o cimento das gavetas, das criptas, das “carniceiras”?
Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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