
Do “Meu cinicário” – O professor de Português é preconceituoso, se não admite desvios na língua culta; ou desonesto se admite, pois é pago para ensinar o padrão.
SÍMBOLOS
Em novembro de 2005, lá no começo da publicação desta coluna, escrevi um texto com o título “Animal simbólico”. Referia-me ao ser humano, fazendo uma paráfrase da célebre declaração aristotélica, proclamando sermos “animais políticos”. Como todas as conclusões filosóficas, admito serem discutíveis, tanto a minha (olhem só o peito!) como a dele. Mas, naquele comentário, apresentei meus argumentos sociais e históricos justificando a assertiva. E, agora, outra vez!
Bem recentemente, ficou mais exposta a cultura do cancelamento. O que vem a ser isto? É um fenômeno atualíssimo, muito claro nas redes sociais criadas na internete, embora não restrito a elas. Como nos programas de computador podemos cancelar relacionamentos e divulgar conceitos negativos (raramente, positivos) sobre fatos e, principalmente, pessoas, as manifestações ficaram facilitadas e, rimando, aceleradas. Ninguém se importa com os conceitos emitidos ou reputações destruídas. Todos pensam estar a salvo, protegidos pelo teclado ou pela câmera fotográfica do celular. O tal “discurso do ódio” passou a correr solto, sem necessitar um “gabinete” específico como divulgado amplamente e, inclusive, objeto de ações judiciais. Na verdade, todo mundo dá sua bicada querendo ver o sangue correr, mesmo só um pouquinho. Assim, temos o ambiente ideal para a proliferação dos grupos em defesa de quaisquer coisas consideradas justas, lutando contra todos os tipos opressores, existentes ou imaginados. É a luta do Bem contra o Mal, um velho embate! E haja surgimento dessas associações, cada uma com verdades diferentes.
Além dos fáceis cancelamentos virtuais, o fenômeno também age na realidade, tentando alterar a própria História. Não a futura, que é uma forma lícita e desejável de atuação política, se executados dentro dos princípios legais; mas a História antiga, como se fosse possível apagar fatos acontecidos. São clássicas as interferências em fotografias, manipuladas para atender desejos totalitários de governos idem. As derrubadas de estátuas e monumentos, objetivando não permitir a exaltação de supostos erros do passado mostram a insatisfação humana com os símbolos venerados por gerações anteriores, que tinham um comportamento, agora conflitante com o pensamento atual. Eram gerações “erradas”.
Às vezes, temo pelos museus e pelas bibliotecas. Na verdade, chego a temer até pelas pirâmides e outros sítios arqueológicos. Devemos lembrar o cancelamento de locais históricos importantes, perpetrados por grupos terroristas em nome de bandeiras muito particulares.
Por Plínio Dias Zíngano
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