Ainda não consigo dar 28 (ou seriam 32 ou 47?) mastigadas antes de engolir um alimento, mas ando experimentando novas sensações ao optar por um movimento mais “slow”, vagaroso, lento, em várias situações, não apenas na hora do almoço. Em tempos de “fast”, onde tudo precisa ser cada vez mais rápido, começo a acreditar que é possível, sim, ser mais zen, no sentido absoluto da palavra.
Zen, aliás, tem sido um termo mal usado ultimamente. Tenho visto muita gente que se diz adepta dessa filosofia ou deste estado de espírito simplesmente porque “pega bem” ser “do bem”. Algo parecido com “ser politicamente correto”, “fashion” ou qualquer coisa que sirva para “inglês ver”, se é que me entendem. Basta acessar o Facebook para se ter uma ideia dos milhares de pessoas que postam diariamente pensamentos clonados não sei de quem com fotinhos esotéricas, isso sem falar nos comentários que nos fazem sentir a mais infeliz e estressada das criaturas da terra diante de tanta gente bem resolvida e espiritualizada.
Nada contra quem é do bem ou politicamente correto, mas acho que não basta pendurar bandeirinhas e comprar uma imagem de Buda ou outra divindade para que tudo se transforme. Lamento, mas sem a essência, sem o autoconhecimento, sem meditação, sem esforço, sem retiro, sem abnegação e silêncio, você nunca será zen. Nem eu tenho plena convicção disso, embora esteja há anos tentando e, confesso, já melhorei muito utilizando várias técnicas, entre elas meditação, psicoterapia, práticas budistas, ioga, respiração e a própria palavra escrita que, cada entre nós, é um santo remédio (vale lembrar que estão definitivamente descartados desta lista livros de auto-ajuda e palestras motivacionais).
Tenho a certeza de que a soma de todos esses fatores, mais a prática diária de exercícios físicos há 13 anos, além de muitas outras atividades culturais e da convivência com amigos de várias tribos, têm possibilitado me conhecer cada vez mais e optar por um ritmo mais “lento”, ainda que alguns me considerem “acelerada”.
Sei que nunca serei totalmente zen, nem se me anestesiarem. Gosto de ação, de ritmo, de movimento, de desafios, de viajar e de estar sempre em contato com coisas diferentes. Detesto, porém, essa gente alucinada, cada vez mais angustiada por querer tudo em instantes, engolindo tudo rapidamente, principalmente a comida, em ambientes lotados e barulhentos, emoldurados por trágicas imagens do noticiário de TV, entra uma garfada e outra.
Descobri o prazer de almoçar em silêncio, em casa ou em locais com menos gente falando e gritando ao redor. Isso faz toda a diferença, acreditem, até no gosto do alimento. Gestos mais lentos, respiração mais profunda e algo zen acontece, podem testar, desde que as crianças estejam na escola e a televisão desligada, claro.
Não que eu dispense um Xis Bacon ou um bifê daqueles cheios de grelhados, com uma infinidade de saladas e vinte tipos de sobremesa, além da companhia de amigos para um bate-papo no almoço. Só que agora isso é uma opção, quando e com quem eu quiser. Enquanto eu puder ter este privilégio de saborear a lentidão da minha própria companhia, lembrando dos almoços em família de algum tempo atrás, quando ainda todos nós nos reuníamos em casa para este encontro ao meio-dia em ponto, terei a felicidade deste momento zen, que pode ser cultivado em todas as coisas simples da vida se soubermos nos reconectar conosco mesmos.
Melhor do que isso, só o feijão e a carne de panela da minha mãe. E disso eu não abro mão, mesmo disputando a atenção dela com o noticiário da TV.
Esta postagem foi publicada em 12 de julho de 2013 e está arquivada em Paralelas.


