Qual seria a sua vida se você crescesse vendo a maioria dos adultos se comportarem como se os outros fossem pouco mais do que nada? E se você só tivesse aprendido a lógica da arrogância e da irresponsabilidade de quem é tão raso – e tão espiritualmente pobre – que não tem mais nada para oferecer ao mundo, a não ser a própria empáfia? E se os valores humanos – inúmeras vezes deformados, perdidos e dolorosamente reconquistados no curso da História – perdessem todo o brilho diante de cada demonstração de esbanjamento exibicionista daqueles que o cercassem? Já que nunca teria visto nenhuma consequência séria acontecer com quem desrespeitasse seus semelhantes, você se sentiria à vontade para fazer o mesmo – e ainda ir um pouco além?
E se, além disso, mesmo tendo todo o acesso, você nunca tivesse lido ou convivido com pessoas que lessem bons livros, que discutissem assuntos interessantes, que cultivassem mais o hábito de se fazer perguntas do que o de emitir opiniões categóricas? Pessoas que lhe estimulassem a pensar e a refletir sobre o significado dos fatos e das coisas, sobre a natureza profunda que se esconde sob a fina superfície da realidade? E se a sua curiosidade só tivesse sido estimulada por pessoas pequenas, pelos motivos errados, atraída para coisas fúteis e inúteis, sem nenhum contraponto sensato de comparação? E se, além de tudo, você tivesse aprendido a medir o valor da vida apenas pelo status ilusório daquilo que se compra, daquilo que se possui ou se aparenta possuir – ao invés das coisas que se constroem, que se conquistam com paixão, empenho e dedicação? Você provavelmente acharia que o mundo é uma grande brincadeira, que nada é sério e tudo é permitido. Toda a sua inteligência teria sido canalizada para este “esforço” de se dar bem sem, enfim, esforço algum. E o mais divertido: sem consequências.
E se as músicas que você tivesse ouvido por boa parte da vida nunca lhe dissessem nada, apenas bobagens rasas, uma coleção de pequenas odes à banalidade, sem valor simbólico algum? E se as palavras “arte” e “cultura”, por muito tempo em sua vida, tivessem apenas um sentido vago e distante, sem relação alguma com seu universo interior? E se quase todos os filmes que você tivesse assistido lhe mostrassem que o legal mesmo é agir como um chimpanzé no cio, anabolizado e dirigindo um conversível em alta velocidade, à caça de fêmeas tão desinteressantes, estúpidas e mesquinhas quanto você? E se você nunca tivesse prestado atenção em nada de fora deste universo cafona e feio – onde “diversão” tem mais a ver com a pobre e comovente ostentação dos exibicionistas do que com “celebração” e “amizade”? E se as únicas provocações que você tivesse sofrido – e feito – na vida nunca fossem aquelas que costumam despertar a fagulha do pensamento, do questionamento – mas sim aquelas que te atingissem em cheio no seu ego inflado com ar, te deixando cego, confuso e cheio de despeito, louco para revidar mostrando que é “o tal”, que vai conquistar seu “lugar de direito” – que você mal saberia dizer qual é – nem que seja à força e passando por cima de qualquer um que se metesse com você?
(…)
Por que, então, no ano da graça de 2013, nesta simpática e hospitaleira cidade brasileira, outros garotos com semelhante trajetória preferiram jogar fora todas as chances e arrastar junto consigo – para seu inferno pessoal – um inocente que nada tinha a ver com seus equívocos, com suas inseguranças, com suas misérias? O que faríamos nós, crianças, em seu lugar? Deveríamos ser punidos como adultos? São ainda crianças? Onde acaba a infância? Em que ponto da vida aprendemos o significado profundo de “respeito” e “responsabilidade” – se é que chegamos um dia a compreendê-lo de todo? E nós, adultos, no lugar da vítima? Deveríamos reagir ou silenciar? Qual o ponto de equilíbrio entre proteger e educar? E o lugar para onde irão os “corrigirá” – onde nós, pais, não corrigimos a tempo? Ou irá torná-los ainda mais vazios e brutalizados? Poderemos reconhecê-los, os filhos que um dia foram? Quais elos desta corrente se revelarão os mais fracos? A sede de sangue que inevitavelmente sentimos ao saber dos fatos nos devolverá a paz? E a família da vítima, terá um dia paz e reparação à altura da perda que sofreu? O mal nasce conosco? Ou entra em nossa vida pelas portas que abrimos? Pode o mal se esconder em uma simples brincadeira?
São todas perguntas incômodas, sem sinais de respostas no horizonte. Mas a mais desconfortável de todas talvez seja: quantos (e quais) de nós puxamos junto aquele gatilho?
Rômulo Carniel, dentista, de Taquara


