Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 4 de outubro de 2019 e está arquivada em Tempo Contado.

Sol de outubro, por Doralino Souza

Sol de outubro

Foi de surpresa que veio o sol calorento deixando aquele meio dia preguiçoso. Lucélia e Romilda estavam sentadas no gramado, às margens da rodovia, lagarteando com gosto, depois de tantos dias de frio intenso. Se deixaram ficar, numa espécie de madorna, por breves momentos, quase esquecidas da frialdade de suas vidas. Olhos semicerrados na luminosidade reluzindo no asfalto, nos campos, em tudo. Nisso, Romilda disse, sem nenhum movimento significativo, “Tu sabia que passava trem por aqui?” A outra olhou pra ela, “Capaz! É sério?” Então Romilda disse, olhando nalgum ponto distante, que sua avó, quando era nova, andou no trem que cruzava bem ali, inclusive, namorou um guarda da estação ferroviária, que ficava perto de onde hoje é a praça, e a avó gostava de falar daquilo, pois decerto fora uma parte bonita duma vida tão cheia de feiura. Depois Romilda se calou.

Lucélia pegou o celular, feito criança com brinquedo novo, ficou entretida por um tempo, lá pelas tantas disse, sem tirar os olhos do aparelho. “A música daquela novela.” Deixou que o som se fizesse presença e cantarolaram junto “….ah senhor cidadão, eu quero saber, se a tesoura do cabelo também corta a crueldade…”. Elas cantaram, se olharam com cumplicidade, e deram risadas (elas tinham entre 16 e 18 anos). Romilda, ainda rindo disse, “Sabe que eu acho esse cantor parecido com um cliente teu?” “Ah, para.” “Sério, aquele lá do Guarujá, que vem todo dia quinze”. Lucélia fez gesto, como se puxasse o nome do fundo da memória, aí perguntou: “O vendedor de queijos?” “Sim!” Elas riram com vontade.

Um motoqueiro parou bem em frente delas, retirou o capacete, pendurou no braço e sem descer da moto abriu o baú de fibra na traseira da motocicleta. Todo simpático perguntou de quem era o xis salada e quem pediu cachorro-quente. As gurias, que já estavam de pé desde que a moto fora avistada, se aproximaram identificando quem era a dona de quê. Lucélia pagou os dois lanches, entregando o valor exato ao motoboy, ele disse tchau e saiu acelerando pela faixa a fora.

As gurias voltaram a sentar sobre a grama e iniciaram aquilo que elas chamaram de almoço. Mastigavam em silêncio olhando ao longe, talvez procurando algo, talvez imaginando aquele trem trazendo e levando as gentes pras lonjuras do mundo, talvez elas pensassem na tristeza poética da canção do Tom Zé questionando a briga eterna e amarga do mundo, onde se feri e é ferido. Ou talvez elas simplesmente absorvessem o calor daquele sol do mês de outubro que estava ali se oferecendo em aconchego.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]?

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]