O desconforto entre eles iniciou quando ambos se preparavam para a maior oportunidade de suas vidas.
Enquanto aguardavam, naquele ambiente minúsculo, que fossem chamados a se apresentar, ainda reinava uma certa paz imposta pela situação de igualdade entre um e outro. Mas bastou que a porta ameaçasse abrir para que o mais robusto se precipitasse a adentrar o novo ambiente, buscando primeiro a oportunidade de ter seus pleitos ouvidos, em alto e bom som, como lhe permitiam blindados pulmões.
O mais franzino ficara para trás na primeira arrancada, e experimentou por mais tempo a angústia de um porvir incerto, agravada por contrações que lhe tencionavam os músculos. Quando finalmente foi chamado a entrar também, só conseguiu se expressar de forma tímida, com o ar lhe faltando. Foi conduzido a outro ambiente, onde esperava encontrar seu par do começo de jornada, mas descobriu-se sozinho. Pouco depois, percebeu que, por perto, havia outros como ele, retraídos, lutando por espaço num mundo talhado para os fortes. Ficou ali, sentindo-se condenado a alguma espécie de segunda chamada, esperando pelo segundo ato.
Enquanto isso, o que largou na ponta gozava o conforto do esforço de seus novos pares em ambientá-lo. Tinha vencido a disputa e queria esquecer os traumáticos momentos que vivera para antecipar-se a seu concorrente.
O mais franzino, com o passar do tempo, percebeu que nem tudo estava perdido, sentiu até que havia um interesse declarado em sua reação. Começou a achar que o queriam naquele meio, e isso lhe deu novo ânimo. Decorrido algum tempo, até a voz já se mostrava mais resoluta, mas continuava incomodado com a sensação de que alguém o deixara comendo o pó da estrada.
Por sua vez, o pole position deste relato encontrava-se cada vez mais autoconfiante da posição de liderança conquistada. O chefe, apesar de rígido, dava claros sinais de simpatia e parecia até querer estimulá-lo. A secretária, por sua vez, desmanchava-se em agrados – estava no papo, não havia dúvidas.
De volta à seção dos preteridos, nosso anti-herói progredia a olhos vistos, e foi convidado a comparecer à presença do chefe, conduzido pela já conhecida secretária, que com ele não mostrava o mesmo desembaraço, era até um tanto comedida, parecia estar lidando com alguma espécie de tolo – intuía ele.
Quando chegaram à presença do chefe, ele não estava só: havia um burburinho que cessou ante o que se anunciava pelo sorriso da secretária. Quando foi apresentado ao homem que devia ser o todo-poderoso do lugar, nosso anti-herói animou-se e até lhe parecia sentir uma certa familiaridade com o poder.
Reforçando sua impressão, foi conduzido pelo chefe para o que seria sua nova sala, um ambiente todo seu – pressupôs. Mas estava errado. O irmão gêmeo já estava lá. Caíram ambos os bebês em estridente choro.
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