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Publicado em 27/08/2021 15:12 Off

Telespectadora da amizade alheia

Que raiva que me dá quando as pessoas criam essa situação. A única coisa que se pode fazer é observar a amizade alheia, porque só chegam burburios. É impressionante a capacidade humana de se alimentar de bolhas estourando no ar. Uma conversa sobre bananas pode render duas horas. Mas se for a banana plantada no quintal da vizinha… Vira a novela de cem episódios.

Bem como só ouço, também sou palco. Não há como negar. Existe o que eu faço e o que acham que eu faço. Incoerência faz parte da jornada de lidar com as pessoas. Pensar sobre elas também faz parte do meu trabalho. E as pessoas… São as pessoas. Não tem o que fazer em relação a isso.

Também não é ruim ser telespectadora, uma vez que somos movidos por séries de acontecimentos que fazemos questão de acompanhar. Queremos saber quando acaba. E o interessante é que aqui, pode durar anos, mais temporadas que a tv nunca seria capaz de replicar. O melhor filme que exemplifica isso, é o Show de Truman.

Na vida, quem interrompe a série é a gente mesmo. Decidimos não dar mais audiência para os amigos dos amigos. Não é mais interessante acompanhar. Não faz mais sentido agora. De tempos em tempos, ainda revivemos os melhores pontos de virada. E, mesmo sem intimidade, ainda temos a cara de pau de perguntar: E aí… Alguma novidade?

Fascinante. E a raiva não é no sentido negativo. É aquela sensação de raiva que faz a gente esperar por algo bom. E que vai demorar pra acontecer. Que vai fazer a gente vibrar de felicidade e alívio e gritar. Acabou o sufoco desse drama. Agora vem o próximo.

E ao mesmo tempo que estamos na expectativa, somos o protagonista da vida de alguém. Alguém que torce e retorce tudo. Que julga e aponta e desiste de acompanhar a gente. E se dá ao melhor direito que é desligar dos nossos acontecimentos. Uma vez que fazemos isso, vão fazer conosco também. Daí deixa pra lá. É assim mesmo, ninguém tem tempo para perder com algo que não quer mais.

Incoerência. A arte existe para dar sentido a isso. A arte é coerente, começa e termina. E faz parte do momento da incoerência. Por isso buscamos o refúgio ali. Porque faz sentido buscar momentos de coerência. É como aceitar que até um relógio quebrado tem razão duas vezes ao dia. E que o original é feito de referências coerentes. Isso não significa que seja útil. Prefiro um relógio na hora certa. Até um atrasado ou adiantado faz sentido, é aceitável. Mas quebrado, serve apenas de lembrete para comprar um novo.

Por Krishna Grandi
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