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Publicado em 31/01/2020 15:05 Off

Terapia – segunda e última parte – reflexos

Olá queridos amigos, aos que me conhecem, estão acostumados com textos provocativos, motivacionais e alegres, e realmente é este o meu perfil, e seguirei assim, mas acho importante mostrar o lado frágil difícil, que a grande maioria das pessoas passa em algum momento da vida, para que outros que estão nesta se identifiquem e entendam que, às vezes, é preciso ajuda e percebam que até uma pessoa feliz e motivada naturalmente tem fraquezas e dores e a diferença está em seguir sofrendo ou superar, eis  a grande mágica da vida. Segue aqui a segunda parte do texto TERAPIA, relato sobre um momento importante da minha história recente. A introdução a este assunto e a primeira parte do texto estão na minha coluna do Jornal Panorama, online da semana passada.

Terapia- Reflexos

Entrar em memórias apagadas, esquecidas de propósito para poder seguir em frente é algo como entrar na arena dos leões, alguém ali comeu seu coração. Nada é por acaso e hoje falo em auto estima e amor próprio possivelmente para ouvir muitas e muitas vezes o que tive que reconstruir sozinha.

Traumas como este refletem em hábitos e formas de agir, nos diversos setores da vida, como um vitiligo vai tirando a cor da pele, sem dor aparente, mas mostrando nitidamente sua presença. Muitos e muitos anos de terapia, a princípio holística depois de fato convencional para suportar um “alien”, um monstro desconhecido que poderia atacar a qualquer momento fragilizando, boicotando sua vítima, eu vítima. E hoje, quando as demais estruturas estão fortes o suficiente, o vulcão entra em erupção lançando incandescente e devastadora lava das profundezes do meu ser. Não é magma, é dor, uma dor forte, antiga, velha conhecida, disfarçada, escondida, cristalizada de lembranças que geram motivos claros pelo mal e pelo bem de quem sou.

“E na luta do rochedo contra o mar” o fortalecimento, a musculação, o treino para sobreviver e ainda ser feliz. Graças a Deus que me deu um otimismo além da conta, desde de pequena, nasci para ser feliz, acredito nisto, escolhi assim, e lutei com unhas e dentes para fazer acontecer, e hoje acontece naturalmente, na mesa arrumada, na comida gostosa, no rosto maquiado, no carinho e respeito dos amigos e no amor imenso que sinto dos e pelos meus filhos, meu sorriso quase sempre presente é consequência da gratidão de ter sobrevivido, e ter exatamente a vida que tenho.

Dizem que temos que ser gratos AOS NOSSOS ANTEPASSADOS   que por causa deles somos quem somos, não consigo neste momento ter gratidão alguma por meus pais (há dois anos), e a que tenho é por Deus e por quem passou por mim,  e de alguma forma, sinalizou que sou capaz, inclusive  de logo adiante, agradecer a eles por terem me abandonado, terem colocado em risco a vida, a integridade física, emocional e psicológica, por negligenciar sua tarefa de cuidar e zelar por duas crianças indefesas. Crianças que eram deles. Me forjaram a ferro e fogo, na dor na ausência, no abandono, na exposição ao risco. Tudo isto por de trás de uma cortina de boa pessoas que eram, de fato eram, para os outros, não para si nem para estas duas meninas, filhas deles. 

Hoje entendo por que me senti culpada, uma vida inteira por ter ficado  aliviada com a morte de minha mãe, e decepcionada mais uma vez com meu pai  que não foi tão cruel,  que também  foi vítima de um amor doente que sentia por ela, sempre pecou por omissão, não me defendeu daquela mulher, egoísta, egocêntrica, dominadora, dona de uma razão infundada e devastadora, seu suicídio prejudicou uma família inteira. Minha vó, meu avô, irmãos, sobrinhos que a idolatravam. Ao meu olhar, ninguém lhe tocava o coração para que os poupasse. Nunca falei tão abertamente assim. Esta era a forma que eu a via, para suportar a dor da ausência, como refletiam minhas cicatrizes emocionais ao lembrar dela.Ninguém merece ter este sentimento pela própria mãe. Que bom que busquei ajuda.

Alguém me disse que coloco bem meus sentimentos em palavras escritas, e hoje depois de uma das mais importantes sessões de terapia de minha vida as uso aqui, agora as percepções começando a se ordenarpara o sofrimento sair de mim o quanto antes.

Era preciso encarrar este passado   para seguir firme e forte para o meu futuro, ainda mais na maturidade, fase difícil por si só. Estou perto de completar 55. (Dois anos atrás)me sinto com 30, e com força suficiente para ficar muito bem com o que construí, e que é minha realidade e meus pilares.

Família, trabalho, amigos. Amor e muito respeito. Eu já sou feliz, seguirei melhor ainda.

Planos, projetos expectativas e um Netoque já está fazendo brilhar os olhos e pulsar os corações e especialmente o meu coração de Vó. (Que hoje é a coisa mais maravilhosa da vida)

 E a Deus só peço que me ajude a seguir olhando a vida com bom humor e que se por acaso eu perder os óculos de lentes cor de rosa, pelo qual sempre olhei o mundo e as pessoas, e que me salvaram da amargura de ser criança abandonada, que eu não perca a capacidade de acreditar no pote de ouro no final do arco íris.

Minha mãe morreu uma semana depois de eu fazer 12 anos, suicídio, aos seus 33 anos, meu pai morreu uma semana depois dela, aos 36 anos, no dia 23 dezembro de 1974, o pai era um homem com inteligência diferenciada, e muita suavidade, saúde frágil e falta de amor próprio. E este vazio, aos poucos e ainda monitorado por mais um ano, após o dia deste texto, deu lugar ao alivio e uma paz de alma recompensadora. Precisava desabafar. Sinto muito por ter sido assim, sinto muito mesmo… foi assim que me senti com todos os fatos, por longos anos. Minha mãe foi uma mulher diferenciada protagonista, moderna, intensa, além do seu próprio tempo, provavelmente com doenças emocionais que não se falava. Hoje procuro entende-la e já a perdoei, assim como ao meu pai, consigo ver as importantes coisas boas que deixaram em mim. E tenho resgatado boas lembranças deles.  Provavelmente foi o melhor que podiam naquele momento. 

Instagram @ericaimagem
Face Érica Ostrowski 

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